11 dezembro, 2017

CINCO MINUTOS SÃO TREZENTOS SEGUNDOS

O filósofo Martin Heidegger e mulher na sua cabana na Floresta Negra

Apresento aos alunos o seguinte caso como ponto de partida para um debate de natureza moral, no âmbito de uma sociedade multicultural: uma funcionária, de origem síria mas ocidentalizada, de uma elegante perfumaria, onde todas se vestem segundo o padrão ocidental, casa com um muçulmano conservador. No dia seguinte, chega ao trabalho com um véu na cabeça e uma túnica que lhe tapa todo o corpo. A dona da perfumaria, não aceitando aquele tipo de indumentária, diz que tem de se vestir como antes, sob pena de ser despedida. A empregada é despedida, fazendo uma queixa-crime da patroa, acusando-a de ter uma atitude racista, xenófoba, discriminatória e intolerante face a outra cultura.

Peço-lhes cinco minutos de silêncio para poderem reflectir um pouco sobre este conflito, ainda antes de tomarem posição e começarem a debater. Faz-se então silêncio. Nem vinte segundos depois, pergunta-me um aluno se é permitido trocar ideias com o colega do lado ainda antes de debater com a turma. Eu, ingénuo, e apesar de não ser o previsto, digo que sim, pensando tratar-se de um caso isolado. Acto contínuo, deparo-me com uma turma de 32 alunos em frenético movimento, uns para o lado, outros para trás, outros ainda esticando-se para a frente, dando origem a uma estridente cacofonia que, não obstante eu perceber tratar-se de um efeito sonoro resultante de estarem mesmo a discutir o assunto, me obrigou a fazer uma coisa que detesto: gritar. Só que o barulho era tanto que nem gritar me ouviam. Só com o estrondoso impacto de um livro que eu, selvaticamente, quase esmaguei na carteira, foi possível aperceberem-se de eu estar a querer comunicar alguma coisa à turma. Finalmente, fez-se silêncio. Silêncio que apenas serviu para eu dizer que podíamos então iniciar o debate. Debate que durou toda a aula, mostrando-se assim como foram bem aproveitados aqueles 5 minutos roubados ao silêncio. Para eles, claro. Já eu limitei-me a lembrar da seguinte passagem de um texto de Simone Weil, escrito no já longínquo ano de 1950:

«Chegámos a uma situação em que quase não pensamos, seja em que domínio for, excepto para tomar posição "pró" ou "contra" uma opinião. Procuram-se depois os argumentos, consoante o caso, seja pró ou seja contra. [...] Um pouco por todo o lado, a posição de tomar partido, de tomar posição pró ou contra, substitui a operação do pensamento». Nota Sobre a Supressão Geral dos Partidos Políticos