21 dezembro, 2017

BLHAC!

Walker Evans

«- Há muita coisa que só é verdadeira para o entendimento das mentes mais vulgares», George Eliot, Middlemarch

Uma proposição, na Filosofia, consiste numa frase na qual dois conceitos estão ligados de modo afirmativo ou negativo. São proposições frases como "Viseu é uma cidade", "Júpiter não é um país europeu", "O cão não é um animal vertebrado" ou "Donald Trump é norte-coreano". Todas elas têm um valor de verdade, não por serem verdadeiras, pois as duas últimas não o são, mas por estarem formuladas de modo a poderem ser verdadeiras ou falsas, o que já não acontece com frases como "Que horas são?", "Anda cá!", "Ai que bom" ou "Blhac, que nojo!", cujos conteúdos não são verdadeiros nem falsos.

A frase extraída do Middlemarch como epígrafe tem um contexto. Dorothea Brooke está enamorada de um clérigo bastante conservador e austero, afastado dos mais mundanos divertimentos, muito mais velho do que ela, feio, mas com uma vida intelectual bastante activa. Celia, irmã de Dorothea, embirra com ele, não vendo com bons olhos a futura relação, ainda para mais quando há um jovem simpático e rico interessado nela mas que Dorothea rejeita por lhe interessar tanto quanto uma folha de alface a um leão. Daí Celia envenenar um pouco o ambiente, pegando em coisas como o modo irritante como o clérigo pega na colher ao comer a sopa ou no modo irritante como pisca os olhos antes de falar. É precisamente na sequência destes comentários que Dorothea, já sem paciência, responde à irmã com a citada frase e cujo sentido também precisa de ser aqui explicado.

Dorothea é uma jovem profundamente intelectual e fascinada por tudo o que tenha que ver com a vida do espírito. Daí o seu interesse pelo clérigo, valorizando o que considera realmente importante para o caracterizar como pessoa. Na sua opinião, o que faz a irmã é centrar-se em ninharias, ficando impedida de ver a verdade a respeito dele. Até se pode dar o caso de ser verdade o modo como o homem pega na colher ou pisca os olhos. Mas, segundo Dorothea, não passa de uma verdade que só é vista por Celia e pessoas como ela, por ser a única que conseguem ver, resultante de uma emoção primária da qual está ausente um conteúdo racional. Dorothea não diz, mas é como se dissesse, que uma mente vulgar consegue transformar uma emoção numa frase com um aparente valor de verdade. Por exemplo, a frase "Blhac, que nojo", não tem valor de verdade uma vez que se limita a exprimir uma emoção. Ora, o mesmo acontece com frases como "Ele é estranho a pegar na colher" ou "Ele pisca os olhos antes de falar", enquanto frases que se limitam a exprimir uma emoção. Mas frases que, entretanto, se transformam numa espécie de juízo supostamente verdadeiro a respeito de uma pessoa. Fosse a irmã uma pessoa centrada no importante e nem repararia nesses aspectos irrisórios, anulando assim a emoção que serve de base ao seu assassínio de carácter

A frase de Dorothea, retirada de um romance do século XIX, vindo de uma Inglaterra vitoriana já tão longe de nós mentalmente, socialmente ou tecnologicamente, é de uma assustadora actualidade. Hoje, com a facilidade de opinar e comunicar através de redes sociais e outros canais como jornais on line, acontece o mesmo que, de acordo com Dorothea, faz a irmã e pessoas como ela. Uma pura expressão das emoções, como acontece com a frase "Blhac, que nojo!", sem qualquer base racional e argumentativa, marcada por um facilitismo atroz, mas que facilmente adquire a aparência de juízos com valor de verdade. É este tipo de discurso, centrado nos aspectos mais mesquinhos e insignificantes da realidade, que derrota qualquer tentativa séria de analisar e discutir os mais variados assuntos que fazem a ordem dos dias. As consequências deste tipo de quadro mental e de atitude, podem ser, quando menos se espera, devastadoras, como já o foram tantas vezes.