10 dezembro, 2017

A VOCAÇÃO

Sou contra os quadros de honra nas escolas mas fui à cerimónia da minha para entregar os diplomas a três alunas de quem fui director de turma, que respeito como alunas e pessoas, e por quem tenho bastante simpatia. À medida que os eleitos iam sendo chamados ao palco, aparecia a sua identificação num ecrã gigante, assim como a profissão que irão um dia abraçar: médicos, veterinários, engenheiros, economistas, empresários, enfim, o costume. Encerrada a cerimónia, encontro a C., minha aluna há muitos anos, estando agora ali na condição de já quarentona mãe. Lá pusemos a conversa em dia, a vida, o trabalho, os filhos. Ah, e a irmã? Irmã que era da mesma turma. Muito calada, com ar introspectivo, quase sempre sozinha mas também com o ar mais tranquilo deste mundo, o mesmo ar com que me disse, ainda tão fedelha, que queria ser freira. Ah, e a irmã?, perguntava eu. E a irmã lá continua freira, em Famalicão. É sem dificuldade que a imagino já quarentona mas com o seu ar tranquilo e introspectivo de sempre, longe dos prosaicos e turbulentos meandros deste mundo. Ter uma vocação desde pequena há-de ser uma Graça: poder ser o que se é, com a mesma aristotélica naturalidade com que uma pedra repousa no chão, os peixes se deslocam na água e as aves voam no céu.