13 dezembro, 2017

A ALEGORIA DA CASERNA


O conceito de "senso comum" é ambíguo. Pode traduzir a ideia de um conhecimento prático, baseado numa clareza e bom senso partilhados por todas as pessoas, independentemente do seu grau académico e cultural. Mas também pode estar associado à ideia, neste caso negativa, de superficialidade, de preconceito, de juízos sem grande critério. Ora, o facto de hoje qualquer criatura ter em seu poder, repito, em seu poder, um teclado, faz com que este sentido negativo se tornasse vulgar nas redes sociais ou nas caixas de comentários dos jornais on line, espaços onde os mais exacerbados estados de alma são vomitados de um modo indigente e boçal,  baixando a inteligência humana para um nível reptiliano.

Eu começo sempre as minhas aulas de Filosofia por uma pequena passagem da "República" de Platão, que ficou conhecida como "Alegoria da Caverna". A ideia é mostrar como é possível pensar nas coisas para além do que o hábito nos fez parecerem ser e que aceitamos sem ponta de espírito crítico. Agarramo-nos a uma ideia e dali já não saímos mais. Acontece que tendo revisto o filme "12 Angry Men", de Sidney Lumet, que tinha visto há uns anos, sou obrigado a reconhecer que o seu valor pedagógico não é inferior ao da sugestiva mensagem da alegoria platónica.

Após toda a apresentação dos factos, os doze elementos do júri reúnem-se numa pequena sala do tribunal para decidirem o veredicto sobre o processo de um jovem acusado de matar o pai. Os factos são de tal modo contra o garoto que nem cinco minutos serão precisos para resolver o assunto. Mas um dos homens pede para pensar melhor, começando a questionar coisas não tão óbvias quanto pareciam. Mas tem um problema: alguns dos homens estão ali com o espírito de quem está descontraidamente numa caserna a dizer umas larachas, encarando de um modo leviano o caso (até porque nesse dia há um importante jogo de baseball), ainda que esteja em causa a vida de um jovem. Daí aparecer logo quem se enfureça pela perda de tempo resultante de uma análise e reflexão mais séria. Acontece que essa reflexão leva alguns a mudar o sentido de voto, enfurecendo ainda mais aqueles cujas opiniões são inabaláveis e nas quais não há espaço nem para um miligrama de dúvida. Um dos que vacilam diz que precisa de pensar melhor mas há logo quem lhe responde que isso só serve para baralhar as cabeças. Um outro, perante alguém que diz "Não sei", reage com violência, respondendo que  "tem de saber", como se um estado de dúvida fosse uma aberração mental. Especialmente um deles, assume todo o fel e raiva que tem dentro de si, descarregando não só nos seus colegas de júri mas sobretudo no garoto que está a ser julgado. Excelente, no filme, o contraste entre a fineza, perspicácia e bom senso do homem que começa sozinho, e a estupidez e boçalidade de outros.

O filme é de 1958, sendo triste pensar como nunca houve tanta gente em cujos olhos e reptilianos intelectos o filme deveria ser espetado como os bolos cheios de creme dos filmes cómicos. Mas também é verdade que quem mais precisaria de o ver é quem menos iria compreendê-lo.