05 novembro, 2017

O VESTIDO VAZIO

JRC

No romance que ando a ler, um viúvo, em grande ressaca com a morte da mulher, fala a outro viúvo da angústia de ver no roupeiro vestidos que a mulher tinha comprado e que nunca chegara a usar. O outro não entende a angústia, julgando ser muito pior associar um vestido a felizes memórias de coisas que se viveram, pensar no corpo vivo que esteve dentro dele, sentir ainda o rasto de um perfume. Mas faz todo o sentido o que diz o primeiro viúvo.

Por que razão é a morte um mal? A morte só é um mal por impedir a obtenção de futuros bens. A morte não pode anular o que se viveu, não pode fazer com que deixemos de fazer o que fizemos. O que faz a morte é interromper o que estava para ser vivido, impedindo a possibilidade de qualquer memória, uma vez que não se pode recordar o que nunca existiu. Imaginar, sim, mas não recordar. A mulher comprou os vestidos para ir passear, às compras, ao café, ao cinema, a um concerto ou jantar fora. Nada disso viria a acontecer, fazendo com que se instale um vazio, uma ausência, um nada, que é muito mais doloroso do que indeléveis memórias. E é essa imaginação a respeito do nada que é bem mais dolorosa do que a recordação de tudo o que se viveu. De certo modo, corresponde à mesma dor de quem não consegue fazer o luto quando o corpo não aparece. Sabe-se que a pessoa morreu mas a imaginação sobrepõe-se à realidade física da morte. Perante um vestido que não se chegou a usar acontece o mesmo. O vestido que foi usado fica arrumado, e definitivamente arrumado, na memória. O outro, eternamente à espera de um feliz e vívido momento que nunca irá aparecer.