18 novembro, 2017

O UNO E O MÚLTIPLO

Chamem-me Ismael. Há alguns anos, quantos ao certo, não importa, com pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e sem nada de especial que me interessasse em terra, veio-me à ideia meter-me num navio e ver a parte aquática do mundo. É uma maneira que eu tenho de afugentar a melancolia e regularizar a circulação. Sempre que na minha boca se desenha um esgar carrancudo; sempre que me vai na alma um Novembro húmido e cinzento, sempre que dou comigo a deter-me involuntariamente em frente das agências funerárias ou a engrossar o séquito de todos os funerais com que me deparo; e, especialmente, sempre que me sinto invadido por um estado de espírito de tal maneira mórbido, que só os sólidos princípios morais me impedem de descer à rua com a ideia deliberada de arrancar metodicamente os chapéus a todos os transeuntes, nessa altura, dou-me conta que está na hora de me fazer ao mar, quanto antes. É o meu estratagema para evitar o suicídio. Catão lança-se sobre a espada com um floreado filosófico; eu, calmamente embarco. Nada há de surpreendente nisto. Embora não se dêem conta, tal como eu, quase todos os homens acalentam, mais tarde ou mais cedo, este desejo de mar.

Começa assim, deste modo esplendoroso, o Moby Dick. Ismael apresenta-se e logo de seguida começar a falar sobre a ilha de Manhattan, sim, essa, hoje tão famosa. Há, neste início, neste desejo de mar, uma sabedoria antiga que tem tanto de grego como de oriental: um desejo de absoluto que é ao mesmo tempo um desejo de unidade, neste caso, traduzida numa atracção por um vazio despojado de toda a multiplicidade. Um absoluto que, ao prescindir do negativo, do conflito, da luta, da contradição, fica reduzido à sua máxima vacuidade.

Como afugenta o narrador a melancolia? Vagueando pelas agitadas ruas da cidade como seria previsível? Na verdade, a multiplicidade distrai, fazendo-nos olhar para todos os lados, ter diferentes perspectivas que são diferentes pedaços de realidade, um mundo sempre renovado em cada esquina, um feixe incontável de estímulos nos quais mergulham, extáticos, os sentidos. A cidade é a expressão mais eloquente do múltiplo, de uma unidade despedaçada, desfeita em pedaços dispersos no espaço e no tempo. Porém, não é na cidade que ele afoga a melancolia. Não é a cidade que faz secar a humidade e o cinzento outonal que lhe vai na alma. Não é a estridente exuberância urbana que lhe faz virar a cara ao abismo do suicídio.

É a homogeneidade abstracta do mar até terminar num horizonte cujo fio parece uma fina seda prestes a volitizar-se. O que significa este desejo de mar? A redução da vida à sua máxima simplicidade, a depuração de tudo o que é supérfluo e insignificante, correspondendo ao desejo de deserto dos velhos monges que atingiam a plenitude tendo apenas areia por baixo dos olhos e um céu azul sobre as almas. Este desejo de mar é uma espécie de higiene poética que transforma o resto do mundo num amontoado de detritos, ficando apenas uma síntese da síntese da síntese, onde os mais sólidos princípios se desfazem como um pedaço de terra seca na água do mar. E deve ser bom.