28 novembro, 2017

O OFÍCIO DE ESQUECER



Há tempos, estava a descascar uma tangerina quando de repente faço uma viagem no tempo até ao cheiro da casa de uma tia. Nada de especial, não fosse ter lá ido pela última vez há mais de 40 anos. E de a casa não cheirar a tangerina, pormenor que não iria esquecer se fosse o caso. Mas a verdade é que no dia seguinte voltei a comer uma daquelas tangerinas e logo a minha memória foi de novo assaltada pelo cheiro da casa. O que só  aconteceu com aquelas tangerinas, quando passo a vida a comê-las. Ora, se a casa não cheirava a tangerina, concluo que o seu cheiro principal incluiria partículas olfactivas cujo cheiro seria idêntico ao de partículas olfactivas no cheiro principal daquelas, e só daquelas, tangerinas. Se pensar no quadro de Matisse La Desserte Rouge, a cor principal é o vermelho. Mas se vir os seus azuis ou amarelos, sei lá, num prato de majólica, sou também capaz de associar o prato ao quadro apesar de se tratarem de coisas bem distintas. Deve ter sido também mais ou menos isto que se passou, só que com cheiros.

Entretanto, há poucos dias, aconteceu-me uma coisa ainda mais estranha, diria mesmo, parva. Ia a andar na rua e passa por mim um Fiat Punto em cuja parte lateral traseira vejo escrita a palavra "Star". Então, de repente, vejo uma avenida de Braga onde me vejo há 15 ou 16 anos a ver passar um Fiat Punto no qual vejo, pela primeira vez, a palavra "Star". Há nisto qualquer coisa que tem tanto de bizarro como de confrangedor por me fazer descobrir a quantidade de lixo que um ser humano pode guardar na sua cabeça, quando há tanta coisa importante a ser esquecida.

Sim, por exemplo, já depois destas duas situações, estava na biblioteca a corrigir testes quando me apeteceu requisitar As Aventuras de Tom Sawyer para levar para casa. Quem tratou da requisição foi uma colega que, ao ver o livro, aproveitou para falar de alguns livros que a nossa geração leu na infância ou adolescência. Eu então lá referi Os Miseráveis, que li pelos 13 ou 14 anos, uma das obras que, tenho a certeza, mais me marcaram. Acontece que do livro nada me lembro a não ser que havia um velhote chamado Jean Valjean, uma garota chamada Cosette, que era pobre e infeliz assim como, muito vagamente, de algumas acções nos esgotos de Paris. Entretanto, a minha colega faz um resumo absolutamente detalhado de toda a obra, que me deixou completamente embasbacado. Eu ia ouvindo tudo aquilo sem querer acreditar que "não li"uma das obras que mais me marcaram. De facto, estar a ouvir o resumo daquela obra ou de qualquer outra obra da qual nunca tinha ouvido falar, seria praticamente igual, exceptuando um ou outro pormenor.

Porém, esta situação algo confrangedora, fez-me lembrar uma frase, da qual me tinha também esquecido, mas de cujo sentido me lembrava, no diário de Cesare Pavese, O Ofício de Viver. Abri o livro, procurei, li a frase e finalmente fiquei com a alma apaziguada:

(13 de Fevereiro de 1944) - "A riqueza da vida é feita de recordações esquecidas.". Uf!