09 novembro, 2017

NOITE DE CRISTAL


Foi a 9 de Novembro (1938) a tristemente célebre Noite de Cristal, dia que simboliza o início do horror nazi. Pensando nesse horror, há quem defenda serem os nazis desumanos ou psicopatas. Não eram. Eram pessoas normais, muitos deles excelentes pessoas até, que apenas se enganaram nas suas crenças e convicções. O ser humano, exceptuando alguns casos patológicos, não é intrinsecamente mau ou perverso, ainda que haja muita gente má e perversa. O facto de haver muita gente que rouba o que mente, também não faz do ser humano uma espécie em que roubar ou mentir seja considerada normal. O mal não é uma disposição natural do ser humano. Se o fosse, seria impensável a sociedade tal como a conhecemos. Seja por disposição genética, hormonal ou neurológica, seja por interesse egoísta, há no ser humano uma predisposição natural para a cooperação, para saber viver com os outros.

O que há no ser humano é uma disposição para ilusões ou falsas crenças, uma justificação dos nossos desejos e apetites que surgem assim sob uma capa de legitimação. Por exemplo, para comermos um suculento bife de vaca ou um saboroso entrecosto no forno, tivemos que matar uma vaca ou um porco, seres vivos que têm a sensação de dor e de prazer e emoções. Nós somos boas pessoas, sensíveis, e não temos instintos diabólicos e perversos face a animais. Mas, acreditando que a vaca ou o porco têm uma natureza que os torna passíveis de serem mortos para nós os comermos, matamo-los com a mesma naturalidade com que os homens cortam o cabelo ou as senhoras pintam as unhas. Do mesmo modo, os alemães que destruíram as montras e as sinagogas na noite do dia 9 de Novembro de 1938, acreditavam estar a destruir lojas e igrejas de gente inferior, desprezível, miserável, não significando o seu sofrimento a mesma gravidade e dramatismo do sofrimento de pessoas que consideravam normais. O problema é nós errarmos demasiado, iludirmo-nos demasiado, acreditarmos demasiado. E há situações, infelizmente demasiadas, em que, por causa disso, resultam grandes dramas, seja nas nossas vidas pessoais, seja colectivamente. Podemos evitar isto? Não. Se pudéssemos, não seríamos humanos mas como Mr Spock que, embora parecesse, não o era. Ainda assim, seria vantajoso sermos um bocadinho mais desconfiados.