13 novembro, 2017

MICHELANGELO PISTOLETTO - VENUS OF THE RAGS


Se estiver para ir a um museu ver arte, faço como quando vou às compras: levar uma lista no bolso só que em vez de batatas, lata de grão e queijo flamengo, vai escrito Van Eyck, Modigliani ou Rothko. Entro, sabendo de antemão o que desejo ver. Por falta de tempo para mais já cheguei mesmo a ir a correr a um museu só para ver três quadros de um mesmo pintor, uma coisa assim de minutos e ir embora. E abençoados minutos que me lavaram os olhos que nem soro fisiológico! Mas também é verdade que já me aconteceram felizes descobertas caídas do céu, obras de cuja existência não fazia ideia e que foram amores à primeira vista.

Foi o que me aconteceu com a escultura Venus of the Rags, ainda por cima num museu de arte contemporânea, a Tate de Liverpool. Vou ser sincero: embora com uma ou outra excepção, as quais me levam ainda hoje a ousar entrar - para além de descarregar a consciência - é sempre com um pé atrás que entro num museu de arte contemporânea, pé que logo se torna o pé que vai à frente pois não demoro muito a procurar o bonequinho que indica a saída. É assim mais ou menos como a vista do Bom Jesus de Braga. Olha-se para a direita, olha-se para a esquerda, foca-se a atenção 3 segundos ali mais 4 segundos acolá, e pronto, ala que se faz tarde. Apenas com a diferença de a vista do Bom Jesus ser bem mais interessante do que a esmagadora maioria dos objectos que povoam esses museus. Nos dias em que acordo mais com a telha e vontade de pegar na pistola, chego mesmo a defender que o conceito de "arte contemporânea" não passa de um caprichoso e esforçado paroxismo.

Quando entrei sabia apenas que iria ter o desprivilégio de poder contemplar ao vivo a famosa cama de Tracey Emin. Já consegui ver coisas bem mais sórdidas e parvas do que a cama onde a menina Tracey curtiu a sua épica neura, mas logo que soube da sua existência passou a ser para mim o símbolo supremo da estultícia artística contemporânea, ou se preferirmos, da artística estultícia contemporânea. E pronto, lá vi o que havia para ver como cão por vinha vindimada, embora com um ou outro pormenor aceitável. Mas com a grande diferença de ter regressado com a Venus of the Rags, que desconhecia.

Desde logo, o seu impacto visual é tremendo. Pode soar estranho falar de impacto visual num museu onde tudo parece ter sido feito para ser entendido por pessoas com um Q.I. acima de 150, relegando os comuns dos mortais para a cafetaria do museu onde sempre poderão ver coisas que pareçam fazer sentido. Mas casmurro que sou, e fiel à etimologia da palavra no helénico mundo a que pertence a nossa Vénus, estética, para mim, começa sempre por ser uma experiência sensível. E é de facto impossível ficar indiferente ao seu poder visual, a todo aquele dinâmico contraste entre o uno e o múltiplo, o mesmo e o outro, a imutabilidade e a mudança, o absoluto e o relativo, de todas aquelas formas e cores, no que quase poderia ser uma alegoria platónica sobre o mundo das ideias e o mundo das coisas, dois mundos que se pressentem sem se tocarem.

Entretanto, apesar de formalmente se tratar de uma obra contemporânea, é profundamente conservadora. Num fantástico livro que comprei há quase 40 anos no Cine-Clube de Torres Novas, Reflexões sobre a Vaidade dos Homens e que há meses teima em não sair da minha mesinha de cabeceira, o nosso Matias Aires lembra que

«Em nada podemos estar firmes, pois vivemos no meio de mil revoluções diversas: as idades, e a fortuna continuamente combatem a nossa constância; tudo consiste em representação que começa não para existir, mas para acabar, menos para ser, do que para ter sido. Vimos ao mundo a mostrar-nos, e a fazer parte da diversidade dele; as cousas parece que nos vão fugindo, até que nós vimos a resistir também. Somos formados de inclinações opostas entre si, e temos em nós uma propensão oculta  que sobre a aparência de procurar os objectos, só procura neles a mudança. A inconstância nos serve de alívio e desoprime, porque a firmeza é como um peso, que não podemos suportar sempre, por mais que seja leve: e com efeito como podem as nossas ideias serem fixas, e sempre as mesmas, se nós sempre vamos sendo outros?»

O que vemos nesta escultura é a resistência a este princípio voraz que domina o mundo, referido por Matias Aires. O que vemos nesta Vénus, que, ao contrário de uma convencional escultura, não pode ser vista em 360 graus, levando-nos a posicionar diante as suas costas, é uma figura branca que mantém toda uma serena e clássica quietude face ao caótico assédio de uma bizarra multiplicidade de trapos coloridos que se acumulam para a tentar mas que dela apenas recebem uma doce indiferença. O artista poderia ter brincado aos contemporâneos, vestindo esta Vénus com alguns daqueles trapos, com a mesma desfaçatez com que Duchamp pintou o bigodinho no rosto de Mona Lisa ou com que se enfia um charuto entre dois dedos do Francisco I de Jean Clouet. Mas não, o artista preferiu fortalecer esta Vénus, no mesmo registo em que o Evangelho fortalece Cristo quando este vai para o deserto ou em que Homero fortalece Penélope no seu tear, enquanto rodeada de todos aqueles pretendentes que não desarmam. A sua serenidade perante o monte de trapos está nos antípodas do suplício de Tântalo, que morre de fome e de sede com tanta água e comida à sua frente mas que não consegue comer e beber. Esta Vénus, milenarmente concentrada no seu ensimesmamento clássico, está rodeada de trapos e quanto mais trapos houver mais esse ensimesmamento sai reforçado. Antropomorfizando a cena, quem parece desesperado são os trapos, acumulado uns sobre os outros, sem uso, absolutamente inúteis, perante a estóica quietude da deusa.

Fortalecer esta Vénus rodeada de tantos trapos confirma a imutabilidade da sua branca e nua identidade ou a ligeira inclinação do seu corpo. Nasceu assim e assim deverá ficar para o sempre, indiferente ao efémero das modas, dos apetites, dos interesses de circunstância. Esta peça não nega a mudança, a evolução ou a contingência do que foi feito para mudar, evoluir e ser contingente. Já Camões sabia e muito antes dele também os gregos o sabiam, que todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Neste sentido, até se pode dar o caso de o tempo fazer partir a mão esquerda de Vénus, caindo com ela o seu manto. A sua homónima de Milo nasceu com dois braços e para a eternidade sem eles haveria de ficar, e com um tal impacto que hoje já não a imaginamos com eles. Mas lá continua branca e nua, igual a si própria, pois apesar de os braços terem feito parte de si, ela não era os seus braços, tal como um carro não é a sua cor embora a cor esteja no carro. Esta escultura é sobre o que existe e que foi feito para continuar a existir como sempre existiu e não para mudar ou acabar. Por causa disso,  pelo que representa e que cada vez mais é preciso não esquecer, trata-se ela própria de uma escultura que deverá sobreviver aos caprichos do gosto, mantendo-se para sempre actual na sua imutável perfeição.