21 novembro, 2017

MADALENA 2.0

Ernest Van Zuylen | Lendo um livro à luz da vela, 1917 [autocromo]

Hoje, no meu tempo de substituição, fui para uma sala onde iria haver uma aula de Português por videoconferência, através de Facebook, a partir da casa da professora. Uma aula que decorreu como outra aula qualquer, dinâmica e interactiva uma vez que a professora também via e ouvia os alunos. Uma excelente aula, diga-se, com professora e alunos em grande nível, completamente embrenhados no Frei Luís de Sousa. Daí eu ter passado 90 minutos a ouvir falar das complexas redes mentais e emocionais de Madalena, de Telmo, D. João de Portugal ou D. Manuel Coutinho, ainda com uma referência aos Lusíadas. Entretanto, estando eu ali apenas de corpo presente na última carteira de uma aula que não era minha, e até mesmo sentindo algum pudor em estar a observar a aula de uma colega, aproveitei para pegar no telemóvel para dar uma vista de olhos nos jornais. Ao ler um artigo de João Gobern no DN de hoje sobre uma colectânea de poesia organizada por José Mário Silva, vi uma referência ao Orfeu Rebelde, de Miguel Torga. Como não me lembrava do poema, googlei e logo fiquei com ele à minha frente. 

Foi a primeira vez que estive numa aula nestas condições, sentindo-me a presenciar um momento de grande sofisticação tecnológica. Mas o mais tocante foi este contacto com um clássico romântico, escrito para ser representado num novecentista palco com tábuas de madeira ou lido por uma menina ou dama num salão burguês, mas num contexto high-tech em pleno século XXI, ao mesmo tempo que lia o velho Orfeu Rebelde, de Torga, através de um gadget que tirei do bolso para me ligar ao mundo, o qual também permite fazer chamadas, escrever mensagens, tirar fotografias, filmar, fazer de despertador, calculadora ou aparelhagem musical, que tem caixa de correio, vários tipos de arquivo, gravador, bloco de notas e mais não sei quantas funções. Uma grande lição, esta aula. Um cenário pós-Alcácer Quibir criado por um escritor do século XIX, junto com um escritor que, no seu Diário, se refere assim a si próprio de maneira tão arcaica:

"Sou, na verdade, um geófago insaciável, necessitado diariamente de alguns quilómetros de nutrição. Devoro planícies como se engolisse bolachas de água e sal, e atiro-me às serranias como à broa de infância. É fisiológico, isto. Comer terra é uma prática velha do homem. Antes que ela o mastigue, vai-a mastigando ele. O mal, no meu caso particular, é que exagero. Empanturro-me de horizontes, e quase que me sinto depois uma província suplementar de Portugal"

Séculos XVI, XIX, XX e XXI ali naquela aula. Se fosse com uma peça de Sófocles ou de Plauto, seria igual. O mundo muda, a sociedade muda, as mentalidades mudam, a ciência muda, a técnica muda.  Já a natureza humana, com as Madalenas, Telmos, D. João ou D. Manuel Coutinho deste mundo, continua sempre igual a si própria.