04 novembro, 2017

LER O VINHO


Ainda nos velhos tempos do LP, gostava de comprar discos mesmo quando os podia gravar. Gostava de ter o disco nas mãos, de ver a capa e contracapa, os interiores, que os havia fantásticos. Sofri algum choque com a passagem do LP para o CD mas logo me habituei. Vendo bem, o CD continuava a ser um LP só que em miniatura, e eu até gosto de miniaturas. E em editoras de qualidade, a cereja dentro do bolo: dentro da caixa, um pequeno livro com informação sobre compositores, intérpretes, a música propriamente dita, e fotografias. Estou a pensar em editoras de música clássica ou como a ECM, sobretudo as New Series com as suas belíssimas capas.

Sinceramente, não percebo como é que ainda não acontece tal coisa com os vinhos. Em vez de termos apenas garrafas nas prateleiras dos supermercados ou lojas, termos caixas em cujo interior, para além da garrafa, viesse também um pequeno livro com textos e fotografias sobre aquele vinho e tudo o que está por detrás dele, em vez apenas das habituais, e bastante básicas, referências no rótulo. Vinho não é cerveja ou qualquer outra bebida cuja origem e processo de produção é mais industrial. Se a água foi uma coisa que nos aconteceu, tal como aos animais, já o vinho foi uma coisa que fizemos acontecer, aproveitando a química da própria natureza. Desde a vindima ao acto de o beber, o vinho está retratado desde o fundo do tempo em azulejos, frescos, tapeçarias, iluminuras, artes decorativas ou pintura. É verdade ser hoje o vinho cada vez mais um resultado de experiências laboratoriais. Sim, e ainda bem, se graças a isso ficarem melhores. Mas será sempre uma bebida ancestral, uma bebida da terra, de castas e, mais até do que uma simples bebida, uma história para beber. Portugal é Portugal, Espanha é Espanha, França é França, Chile é Chile, Nova Zelândia é Nova Zelândia. Em Portugal, Douro é Douro, Dão é Dão e Alentejo é Alentejo. No Douro, uma coisa é a Adega Cooperativa A, outra será a Quinta B. Muito mais interessante se tornaria o vinho se, para além da Graça de enchermos a alma com essa bebida sagrada, pudéssemos conhecer a sua história com textos e fotografias, desde a terra de onde emerge o divino fruto, até ao seu momento final, pronto para ser bebido.

Quis o destino que nos últimos tempos eu viesse a beber vinhos chilenos, todos eles excelentes, sobretudo um Casillero del Diablo, Reserva Privada de 2015 e um Tarapacá, Grand Reserva, também de 2015, cujos rótulos até retirei para colar num caderno para não os esquecer no caso de não voltar a bebê-los. Estar a beber aqueles vinhos não é estar apenas a beber aqueles vinhos com sabores nunca antes experimentados, é estar a beber a América do Sul, a beber aquela terra, a beber uma história escrita a milhares de quilómetros do copo onde os vou verter. Seria uma enorme riqueza, para além da riqueza de os beber, poder conhecê-los, para aumentar ainda mais a riqueza de os beber. Santo Agostinho, no De Libero Arbitrio, lembra que a consciência da vida é bem melhor do que a própria vida. Já no De Trinitate, coloca o amor e o conhecimento em correlação. Eis duas óptimas ideias para aplicar ao vinho: ter a consciência do que se está a beber é bem superior ao simples acto de beber, por muito bom que este seja; por outro lado, amar e conhecer um vinho são duas diferentes faces de uma mesma moeda, isto é, amar um vinho é desejar conhecê-lo e quanto mais se o conhece mais se deseja amá-lo. Seja ali de Portalegre, de Setúbal, de Vila Real, seja de Castilla la Mancha, de Bordéus, do Chile ou da Califórnia. É um todo. E um todo que virá a enriquecer ainda mais a mística do vinho, o prazer de o descobrir para, consequentemente, ajudá-lo a assumir sua verdadeira essência: ser bebido.