30 novembro, 2017

DEUS 2.0

[2001 Odisseia no Espaço]

[também aqui]

O problema da existência de Deus foi, até ao século XIX, tema incontornável da Filosofia, não havendo filósofo que não metesse a sua colherada nem que fosse para deitar veneno. Depois, quase recebeu a extrema-unção. Resistiram as diversas artes com grandes obras sobre a felicidade ou angústia de um mundo com ou sem Deus, mas foi sobretudo na agenda ideológica que se manteve mais animado, sendo Deus amigo ou inimigo conforme a cartilha política republicana, monárquica, integralista, fascista, anarco-sindicalista, comunista, socialista, democrata-cristã, católica progressista, sem esquecer a Carbonária que, antes de Al Gore, era o CO2 da igreja. E não faltavam jovens católicos com avassaladoras crises de fé, sobretudo após leituras de obras como O Drama de Jean Barois, ou pelo triste e cruel espectáculo de um mundo incompatível com a ideia de um Deus misericordioso mas que mais parecia um surdo-mudo incapaz de comunicar por linguagem gestual. No final do século ainda houve alguma animação com manifestações à porta de cinemas por motivos religiosos, embora como reacção popular a uma imagem heterodoxa de Cristo ou Maria e não pela existência de Deus no seu mais sofisticado e perfumado sentido filosófico ou teológico.

Ao pensar agora nas minhas inflamadas discussões liceais sobre a existência de Deus, entre imperiais e tremoços no café Portugal ou entre imperiais e queijinhos amanteigados no Zé da Ana, combustadas pelas fervorosas jacobinices de um niilista russo do século XIX, vejo todo um mundo que se finou. O problema é hoje tão estimulante para um jovem como uma máquina de fazer gelo para um esquimó. Ao introduzi-lo nas aulas, na esperança de estimular alguma adrenalina mental, via alunos anestesiados com a mesma dose de abulia que os levaria a sacar do telemóvel perante um discurso parlamentar de Jorge Lacão sobre a reforma do Estado num programa a preto e branco ainda do tempo do Eládio Clímaco, na RTP Memória. Contrariamente a fait-divers cómicos sobre a Coreia do Norte, a existência de Deus não chega sequer a ser um problema desinteressante mas apenas um não-problema.

Mas consegui um bom truque culinário para inverter a situação: um modernaço e gourmet molho conceptual. Jogando com os conceitos de causalidade e acaso, exorto os garotos a imaginarem Deus como um super-hiper-mega-giga computador cósmico cuja base de dados contém tudo o que aconteceu, acontece e acontecerá no universo. Enfim, uma espertalhona versão high-tech da clássica e mais humilde noção de “omnisciência”. Nada que faça lembrar pais, filhos ou espíritos santos, conversa de catequese ou missa dominical, apenas e só um super-hiper-mega-giga computador cósmico, toma e embrulha! Vejo então caras limpas das vacuidades do Facebook e de vídeos estúpidos do Youtube e, agora sim, sinto pensamentos fervilhando dentro das cabeças com tão cool sugestão. Entretanto, eles discutem e eu já não me sinto o melancólico espectro de um niilista russo do século XIX que arrumava a existência de Deus na classe dos opiáceos e outras drogas duras. Sinto-me vivo e filosoficamente titilante e, graças a Deus, já desintoxicado dos não menos duros opiáceos contrários.