23 novembro, 2017

DA VIDA DAS MARIONETAS



«Todos pensamos que temos livre-arbítrio. Como poderíamos não o pensar?[...]Sem liberdade, percorremos caminhos predeterminados, incapazes de controlar os nossos destinos. Uma vida assim não vale a pena.» E. Conee e T. Sider, Enigmas da Existência. Uma visita guiada à metafísica


Se eu levasse a sério o que é dito neste texto já me teria suicidado. Não percebo por que razão a ausência de livre-arbítrio vai tirar piada à vida. O chocolate que estou a comer neste momento dá-me o mesmo prazer, esteja eu a comê-lo em resultado do meu livre-arbítrio, esteja eu a comê-lo em resultado de uma causa que não controlei e que determinou estar agora a comê-lo. E tenho para mim ser a segunda hipótese a correcta e quero lá saber que assim seja desde que continue a ter chocolates na despensa e muito prazer em comê-los.

Há, na Filosofia, quem marque a diferença entre o que fazemos (acções) e o que nos acontece. Por exemplo, andar pela borda de uma piscina e entretanto mergulhar por sentir o desejo de refrescar ou nadar é uma acção. Já andar pela borda de uma piscina, escorregar e cair à água foi uma coisa que aconteceu. Comprar uma camisola é uma acção, oferecerem-nos uma camisola é uma coisa que nos acontece. Tudo o que fazemos conscientemente, voluntariamente, intencionalmente e deliberadamente é uma acção, o que deixa de fora situações como espirrar, fazer a digestão, virarmos-nos na cama enquanto dormimos, ou despistarmo-nos a conduzir por ter rebentado um pneu.

Porém, até que ponto tudo o que fazemos, sendo considerado acções, não são simplesmente coisas que nos acontecem? Sim, uma pessoa que preferiu comer um pastel de nata em vez de um rissol, foi uma coisa que lhe aconteceu, comprar uma camisola azul em vez de uma castanha ou cinzenta foi uma coisa que lhe aconteceu, escolher subir o Tibete em vez de dormir sob um coqueiro em S. Tomé e Príncipe foi uma coisa que lhe aconteceu. Tal como tirar um curso, casar, divorciar, ter filhos, mentir, matar, roubar, gostar de Proust, não gostar de música clássica, cooperar ou ocupar cargos de chefia. Tudo coisas que acontecem. Sim, temos a ilusão de serem acções, coisas que escolhemos livremente. Mas tal só acontece porque não vemos os invisíveis fios que, enquanto causas, nos comandam. E mesmo que por vezes possamos dar pela existência de um deles, acreditando que vamos manobrá-lo, já não vamos dar pela existência do outro fio que fez mexer o fio que nos fez mexer.