26 outubro, 2017

THIS MORTAL COIL


Estou na biblioteca a corrigir testes, olho para a estante e dou com a obra completa em quinze volumes, encadernada, de Ferreira de Castro. Não um, nem dois, nem três exemplares de cada volume mas quatro, o que dá um total de sessenta volumes. Interrogo-me sobre o que está aquilo ali a fazer num local de gente viva, tantas vezes até demasiada viva, livros moribundos de um autor morto, mas também sobre mim, que pergunto o que está aquilo ali a fazer. Adolescente, li três livros de Ferreira de Castro, A Lã e a Neve, Emigrantes e A Selva. Eu, que estou vivo e ando no meio de gente viva, ainda sou alguém que leu livros de Ferreira de Castro. 

Quando fui para a universidade e entrava em alfarrabistas, não como coleccionador mas em busca de livros baratos, via dezenas de livros mortos, outrora lidos por pessoas também já mortas, enfim, livros que já ninguém lia, restando apenas os seus cadáveres de papel pelas prateleiras. Livros e leitores que faziam parte de um mesmo todo, de uma mesma substância mortal. Enquanto pessoa que leu livros de Ferreira de Castro e que anda no meio de gente viva, acabo por me tornar num fantasma, alguém que ainda aqui está mas já com um pé noutro mundo. Quando, em breve, eu também partir, irei regressar aos alfarrabistas que frequentava aos vinte anos, só que do lado de lá, isto é, não como alguém que entra para voltar a sair, mas fazendo já parte do clube de leitores mortos que leram livros igualmente mortos. E quando, daqui a uns anos, também deixar de haver alfarrabistas, então, aí sim, vai ser a morte definitiva de escritores mortos, de livros mortos, de leitores de livros mortos e de vendedores de livros mortos enquanto, cá fora, a vida continua na sua infinita espiral.