10 outubro, 2017

SEM DIRECÇÃO


Se pensarmos na história como um filme, teria protagonistas e figurantes e o homem que aparece aqui morto seria claramente um protagonista. Um protagonista com um projecto social, uma ideologia, uma filosofia, um ideal. Entretanto morto, perdeu a consciência de tudo isso e a consciência de si como parte de tudo isso. Mas os figurantes que ali rodeiam o herói morto, apesar de vivos, também não têm consciência de si e do que ali estão a fazer. O homem morto sabia, ou julgava que sabia, por que tinha uma arma nos braços ou por que causa iria morrer, os outros apenas sabiam que tinham de matar o homem que tinha uma arma nos braços, não matando em nome de uma causa mas apenas porque lhes mandaram matar. São soldados como poderiam ser camponeses, operários ou mineiros, enfim, alguma profissão iriam ter. Olham para o troféu, exibem o troféu, mas muito longe de entender o verdadeiro significado do troféu, o que está em jogo com o troféu, o que representa historicamente o troféu. Não sabem o que é o socialismo ou a economia de mercado, o que é a Guerra Fria, quem foi Marx, Bernstein ou Trotsky, a diferença entre reforma e revolução. Claro que enquanto figurantes são importantes. o que seria de um filme sem os anónimos figurantes? Alguém imagina um filme romântico em que dois amantes passeiam numa Paris esvaziada de pessoas? E quem seriam Dario, Alexandre, Aníbal, Napoleão, Hitler ou Montgomery sem as suas tropas? Mas também o que sabem as tropas do que andam a fazer? No fundo, não passam de massas cegas e acéfalas que avançam ao som de uma ideia lançada mas que apenas entendem como um assobio que os faz depois correr ou saltar como se fossem cães amestrados.

Mas também saberão mesmo os protagonistas o que andam a fazer? Quer dizer, sabem. Mas não serão igualmente figurantes dentro de um argumento que eles próprios não dominam? Não terão apenas decorado e representado o seu pequeno papel de um filme cujo desenrolar desconhecem em absoluto? Talvez sejamos todos, protagonistas e figurantes, demasiado pequenos para este grande filme que sabemos como foi mas cujos encadeamentos nunca sabemos como irão ser depois de o largarmos, pois trata-se de um filme sem realizador e produtor. Escrevesse eu em inglês e em vez de dizer que o filme não tem «realizador» diria que não tem «director». Aproveito, no entanto, a palavra inglesa para, pensando em Português, concluir que, neste grande filme contínuo e ininterrupto que é a história, todos nós, protagonistas e figurantes, actuamos sem uma verdadeira noção da direcção em que caminhamos.