23 outubro, 2017

PORTOMENISTÃO


Calhou ver, há umas semanas, um excelente filme de Henri-George Clouzot, A Verdade, do qual não pude hoje deixar de me lembrar. Dominique (grande papel de Brigitte Bardot) é julgada pelo homicídio do seu namorado, um jovem chefe de orquestra. Sendo, de certo modo, um clássico filme de tribunal, assistimos não só ao julgamento do homicídio propriamente dito mas, à boleia daquele, da vida pessoal da ré, acusada de excesso de hedonismo e de hábitos demasiado liberais, longe, portanto, do que é considerado uma conduta exemplar por esse anónimo mas implacável grupo de jurados que é a moral e os bons costumes.

O filme é de 1960, oito anos antes do «Maio de 68». Estava a vê-lo e a pensar como esta história se tornou hoje anacrónica. Não que o filme esteja datado, nada disso, apenas o que denuncia, num país da União Europeia, dezassete anos depois do início do século XXI. Afinal enganei-me. Não bastava aquele iluminado juiz que desdramatizou o facto de uma mulher ficar com a sua vida sexual limitada depois de uma cirurgia, por considerar que o sexo, para uma mulher e mãe de dois filhos, já não é a mesma coisa depois dos 50 anos, agora foi a vez de um acórdão de um tribunal do Porto desdramatizar um acto de violência doméstica, desculpando o marido em virtude da conduta pouco exemplar da mulher. Acórdão que já considera ter a mulher muita sorte por não viver num país onde uma mulher adúltera é alvo de lapidação ou morte.

Há uma parte da Turquia cujo cosmopolitismo e abertura não anda longe do cosmopolitismo e abertura de um Portugal moderno que ultrapassou rapidamente a bafienta e opressiva atmosfera do Estado Novo. Mas também há uma Turquia profunda onde os libertadores ventos da história ainda não se fizeram sentir, sendo as mulheres as principais vítimas de uma mentalidade bárbara. Havendo tantos portugueses que fazem as malas para uma vida no estrangeiro, bem podiam alguns dos nossos juízes fazer as suas e rumarem para essas zonas ancestrais. Talvez lá se sintam mais em casa e os possam deixar em paz.