02 outubro, 2017

OS ESPAÇOS EM VOLTA

Jose Manuel Ballester

Todos os trabalhos desta série do fotógrafo e pintor espanhol partilham um elemento comum: a ausência de presença humana em espaços que nos habituámos a reconhecer em função dessa fortíssima presença. Espaços tão obviamente reconhecidos que nem vale a pena identificá-los. Aquela jangada à deriva no mar só pode ser a de Géricault, aquele jardim não pode ser outro senão o da Anunciação, de Leonardo. Embora nada tenham que ver com a série «Poética da desaparição» de Ixone Sadala, outra artista espanhola, foi a ideia de uma poética da desaparição que me ocorreu quando os vi a primeira vez. Estranhamente, o impacto não foi negativo, apesar da desintegração do elemento humano numa paisagem densamente humanizada. Melancólico, sim, uma melancolia da perda ao vermos todas as suas personagens partir. Mas também deixando o seu rasto graças à preservação de um espaço que permaneceu igual ao que sempre foi. Partiram, mas a indelével memória delas nesse espaço prende-as a ele, como almas que a morte fez desaparecer do mundo em que sempre viveram mas do qual, como almas penadas, não conseguem libertar-se graças à enorme osmose entre os dois. No fundo, o que há de poético nesta desaparição do que julgaríamos ser eterno e imutável, do que foi criado para não poder ser de outra maneira, é a presença quase física de um silêncio ainda  maior em espaços que, já por si, porque de pintura se trata, são silenciosos, ainda que ecoem gritos e tiros de espingarda no mundo real, como no fuzilamento de 3 de Maio, pintado por Goya, o som da tempestade sobre a jangada ou dos passos dos caçadores sobre a neve.

Deixando agora a melancolia, um possível exercício motivado por estes trabalhos será testar a importância do elemento humano a partir da consciência da sua perda, obrigando-nos a reconhecer a superioridade do mundo do espírito face a um mundo exterior despojado desse espírito. O que estas espaços sem vida revelam é o mesmo que o rosto de alguém que acaba de morrer, cuja identidade permanece mas sem a alma que lhe dá vida. No caso destas imagens, também o espaço é o mesmo mas um espaço literalmente desvitalizado, desanimado, isto é, sem uma anima que lhe insufle vida. Trata-se, neste sentido, de pensar o espaço físico como simples palco do movimento do espírito, tábuas de madeira que, sem esse movimento, se tornam desoladoras, vazias, lunares, quase inorgânicas. O teatro do espírito humano, a odisseia do espírito, que vai de um regresso da caça numa floresta do século XVI a um fuzilamento espanhol do século XIX, passando pelo tranquilo atelier de um pintor do século XVII, e que apresenta múltiplas e as mais variadas expressões, precisa do seus espaços para se manifestar. Ulisses é Ulisses mas sem as ilhas por que passou no regresso a Ítaca, não teríamos Odisseia, apenas a normal viagem de um homem sem nada para contar. Mas também o que serão ilhas gregas sem Ulisses, sem Circe, sem Calipso, sem os Ciclopes ou sem uma Penélope trabalhando diariamente no seu tear sem nunca chegar ao fim? Apenas ilhas. Eis, pois, o que também acontece com estes espaços alienados do elemento humano: apenas espaços.

Creio, porém, que estes trabalhos permitem ainda outro e não menos interessante exercício: Perceber a pintura como um mundo que se sobrepõe à realidade propriamente dita. Sem dúvida que o mundo existe sem a consciência dele. O mar, uma floresta ou o salão de um palácio real não precisam de uma consciência humana para serem o mar, uma floresta ou o salão, embora a consciência deles possa não coincidir necessariamente com o que são em si mesmos, como bem ensinou Kant. Mas a partir do momento em que o pintor recria um espaço concreto na sua tela, será esse espaço que prevalece. Doravante, aquele salão real será sempre o salão da família real espanhola e de parte da sua corte. Uma jangada à deriva no mar será sempre a jangada de Géricault, aquela pequena encosta com o casario ao fundo deixou de o ser para se transformar definitivamente no fuzilamento recriado por Goya tal como Guernica deixou de existir sem Picasso. Os fuzilamentos de 3 de Maio de 1808 existiram mas o de Goya tornou-se a sua essência, para a qual os olhos e os espíritos se viram para os pensar e nomear. Ora, despojar os espaços do seu elemento humano criado pelo pintor, é voltar a um tempo anterior a essa criação, um tempo que já não conseguimos mais compreender. Deixar de ver ali Cristo e os apóstolos à volta da mesa, torna não só o quadro irreal mas anula também a própria ideia da Última Ceia pois a partir do momento em que o pintor a recriou já não sabemos viver sem ela. É caso para lembrar Oscar Wilde com a sua ideia de ser a vida a imitar a arte e não o contrário.