12 outubro, 2017

NACIONALISMO


Admito ser limitação minha mas há dois sentimentos que, por muito que me esforce, não consigo entender: o sentimento religioso e o sentimento nacionalista. Quanto ao primeiro, percebo que uma pessoa consiga acreditar no que deseja muito acreditar ou apenas por uma preguiça mental que evita duvidar do que se começou a acreditar numa fase da vida em que é possível acreditar seja no que for. Isso percebo. Só não consigo é ter a minha própria experiência da experiência de acreditar numa coisa na qual não faz o menor sentido acreditar. Percebo que uma pessoa acredite numa coisa absurda como 8x7 serem 63. O que não consigo é ter a experiência de acreditar que 8x7 são 63 quando me sinto racionalmente obrigado a acreditar que são 56. Pronto, é mais ou menos isto.

Ao contrário da religião, com o sentimento nacionalista não existe a crença num objecto que tudo leva a crer que seja falso. Por muito legítima que seja a emoção na experiência religiosa, estará sempre condicionada pela verdade ou falsidade dos seus conteúdos. Claro que o sentimento nacionalista pode estar infectado por crenças falsas ou simplesmente frágeis de carácter histórico ou filosófico. Mas o que conta verdadeiramente no sentimento nacionalista é de natureza emocional e as emoções não são verdadeiras nem falsas, apenas emoções. Ora, a emoção eu consigo perceber. Sentir emocionalmente apego a uma nação não anda muito longe de sentir apego à família ou a um clube. Eu, não sendo nacionalista, sinto esse apego: nasci aqui, habituei-me a ser português e a tudo o que tenha que ver com Portugal, tenho aqui as minhas raízes e, sendo assim, quando chega o dia de Portugal jogar com a Suíça, torço por Portugal. Ou sinto que chego a casa quando saio de Badajoz para entrar em Elvas apesar de não ter qualquer ligação a esta cidade a não ser as ameixas quando como sericaia.

Pronto, isso é uma coisa. Outra é a minha identidade depender excessivamente desse sentimento nacionalista ou considerar demasiado importante o peso individual da minha nação, quer dizer, o que ela tem de específico e único face às outras nações. Raças, culturas, línguas, histórias, está tudo tão misturado ao longo dos séculos, que se torna difícil aceitar um excesso de emocional concentração patriótica ou nacionalista. Consigo entendê-lo numa situação radical como a de um país ser ocupado por outro à margem do Direito Internacional, tendo o primeiro todo o direito à sua liberdade, independência, auto-determinação. Porém, no actual quadro europeu, e apesar do "excesso de história" de alguns países, exacerbados sentimentos nacionalistas soam desajustados, regressivos, atávicos. E, claro, disruptivos. Percebo a patológica necessidade disso como posso perceber a patológica necessidade de um adulto se sentir atraído por crianças ou a patológica necessidade de matar gente. Consigo perceber a partir do momento em que me ponho a brincar à psiquiatria. Mas, confesso, e creio que felizmente, não consigo fazer a minha experiência pessoal dessa experiência.