15 outubro, 2017

CRASH

O realizador David Cronenberg


«Cala-te quando falas comigo!» Do filme Gato Preto, Gato Branco, Emir Kusturica


Vou muito sossegado na minha caminhada quando, ali na recta que vai do colégio Andrade Corvo até à rotunda da Atouguia, passam dois carros a apitar um para o outro. Pelo modo como as buzinas tagarelavam, percebi logo tratar-se de arrufo entre condutores, confirmado depois pelo modo como gesticulavam. A estridência sonora ainda se prolongou durante um bocado. Ora apitava um, ora apitava outro, ora apitavam os dois ao mesmo tempo, ora com sons mais longos, ora com sons mais curtos. A situação tornou-se cómica pelo modo como as buzinadelas sugeriam a ideia de frases sonoras, transformando aquilo num diálogo. Diálogo insólito, é verdade, pois um diálogo implica uma linguagem, e uma linguagem com uma estrutura sintáctica e semântica que dê um sentido ao que diz A e, consequentemente, ouvido por B, ou o que diz B, ouvido depois por A, enquanto duas buzinas não passa de simples ruído, uma informe manifestação sonora em que cada um das partes tenta impor-se à outra. Mas também é verdade que já assisti a pequenas e longas conversas em que o objectivo, apesar de palavras em vez de buzinas, é exactamente o mesmo. As palavras servem apenas para disfarçar, dando uma aparência racional ao discurso, pois o que conta mesmo é buzinar. Buzinar mais e buzinar mais alto do que a buzina do interlocutor.