14 outubro, 2017

CLÍNICA GERAL

Eugene Smith | Série Country Doctor

No mercado, peço ao senhor dos queijos que me desse o mais forte de ovelha que lá tivesse, dando-me então a provar três lasquinhas de queijos diferentes. Como acordei bem disposto, e apesar de falar com ele pela primeira vez, apeteceu-me comentar que ando a pensar suicidar-me e como não gosto de métodos violentos iria tentar através do colesterol. Foi o suficiente, juro pela saúde dos meus filhos, para levar com uma dissertação de uns quinze minutos sobre nutricionismo, medicina quântica, grupos sanguíneos, tipos de gordura, tipos de carne, animais alimentados a milho, animais alimentados a trigo e aveia, alimentação no tempo das cavernas e outras coisas do género. Momentos depois, enquanto encho um saco com romãs, a velhota volta a repetir (creio que pela terceira vez) a história das romãs fazerem muito bem à saúde e que uma cliente sua, uma doutora médica, as leva aos magotes, presumindo cá para mim que com o espírito de quem sai de uma farmácia. Entretanto, tive de passar pelo Modelo e como me esquecera de comprar batatas, aproveitei para o fazer. Não é que junto delas está agora uma indicação com as propriedades das batatas que são favoráveis à saúde? Mas a cereja em cima do bolo vi eu, há dias, no Porto. Na rua da Torrinha descubro um sapateiro cujo nome é "Clínica do Calçado". Fiquei estarrecido com a designação. Entretanto, horas depois, desta vez na rua do Paraíso, volto a encontrar outro sapateiro também chamado "Clínica do Calçado". Pensando tratar-se de um franchising, resolvi pesquisar. Não, não é um franchising mas antes um conceito. A clínica da rua da Torrinha chama-se "Antes e Depois", a clínica da rua do Paraíso chama-se "Amândio G. Ferreira", vindo entretanto a descobrir mais clínicas destas no país. Parece pois que deixou de haver sapateiros para passarmos a ter clínicos de sapatos. Se pensar na obsessão sanitária de que enferma a vida moderna serei obrigado a concluir que tudo bate certo. E eu, ingénuo, que pensava que quando se mandava beber água do Vimeiro porque a saúde estava primeiro, era só por se tratar de uma rima que daria um slogan giro para entrar no ouvido.