27 outubro, 2017

ANTES E DEPOIS


Fico mais impressionado ao saber de um atentado terrorista ocorrido num local onde tenha estado do que num local onde nunca estive. Não porque haja mortos de primeira e mortos de segunda mas por causa da inevitável relação com a minha experiência interna do local. E a percepção é diferente consoante tenha ocorrido antes ou depois de lá estar. Chegar a um lugar onde ocorreu um atentado é chegar já com a consciência do mal e com a impossibilidade de o dissociar do atentado, perdendo-se assim a pureza e inocência de estar numa rua que é simplesmente uma rua, a qual passa a ser também um lugar histórico onde o passado ficou congelado. Lembra o professor Hermano Saraiva quando, com os braços estendidos, dizia, empolgado, "Foi aqui que...". O mesmo acontece com o atentado, transformando uma simples rua naquela "Onde foi que...". O que explica já ter visto, muito pouco depois de um atentado, ainda com flores e velas no local, pessoas a serem fotografadas, em pose, como se tivessem como fundo a Tower Bridge, para depois postar com uma legenda a dizer "Je suis qualquer coisa". Claro que é chocante estar lá a pensar na carnificina, só que o "luto" do acontecimento já foi feito muito antes, nos dias seguintes ao atentado, o que faz com que ao lá chegar tenha apenas um encontro com a história.

Já ocorrer o atentado depois de lá ter estado acaba por ser mais impressionante. Já não penso nele como local histórico, mas onde estive num estado de ingenuidade, entretanto destruída pelo atentado. Onde estive, sabendo agora, a posteriori, que poderia ter sido vítima, pois ainda não acontecera o que estava para acontecer (ao contrário da situação anterior, em que se chega a um local sabendo já ter acontecido), gerando assim uma maior identificação com as vítimas, pessoas que estavam naquela rua tal como eu lá estive, apenas numa rua. Eu sei do atentado e penso naquela rua onde estive sem saber do atentado, sendo a associação imediata, não com o mal mas com o bem que conservo e do qual também não tinha consciência, por simplesmente estar, tal como elas. O que não acontece com as vítimas  de um atentado ocorrido antes de lá estar: apesar de também estarem apenas numa rua, eu, pelo contrário, chego lá a mastigar o fruto da árvore do bem e do mal, já com um pé fora do paraíso, sendo a minha experiência do local completamente diferente da experiência delas.