24 setembro, 2017

TRINCADEIRA PRETA DE ALCOROCHEL



Em Portugal, o começo do Outono é uma farsa. Houve tempos em que eu ainda acreditava que a chegada do Outono harmonizasse a teoria do calendário com uma realidade climatérica e paisagística que vai chegando como o lânguido som de um violoncelo ouvido ao longe, de início quase imperceptível, mas, à medida que se aproxima, envolvendo-nos cada vez mais no seu perfume. Se a velhice é a fase da vida em que as ilusões se desvanecem, não é a atempada chegada do Outono que irá ser a excepção, sendo já crónico o seu adiamento.

O Outono tem uma sombria beleza tchekhoviana que me limpa os olhos do excesso de Sol, podendo voltar a olhar tranquilamente para as coisas após os terríveis encadeamentos do Estio cujo radical Iluminismo meteorológico, seca, queima e descora tudo o que se submete ao seu jacobino poder. Mas continuar a minha terra acima dos 30 graus nestes dias, é deitar tudo a perder. O que me salva são os frutos. Ontem, comi a primeira romã. A volúpia dos dióspiros já vai na segunda semana de felicidade, os figos secos, abrindo-se para as nozes, levam um avanço ainda maior Também ontem, no mercado, comprei, à própria senhora que as apanhou, umas uvas da casta Trincadeira Preta, sendo a experiência de as comer absolutamente redentora. No Fugas de ontem, na sua habitual crónica de vinhos (absolutamente imperdíveis, um dos melhores cronistas portugueses e que fala sobre vinhos como mais ninguém), Pedro Garcias escreve sobre o vinho bebido pelos padres nas suas homilias. O vinho do padre, como quase tudo na Igreja Católica, tem um valor perfunctório, um gesto que se repete mecanicamente, motivado por um simbolismo cada vez mais perdido nas caves da história e enredado em tortuosas burocracias teológicas e litúrgicas num documento como o lá citado Redemptione Sacramentum

Os padres que bebam o vinho que quiserem ou que a Teologia lhes deixa beber, isso é lá com eles. Sei é que jamais terão a minha religiosa experiência com as uvas Trincadeira Preta que ando a comer desde ontem e cujo sabor é tão miraculoso como o milagre do vinho: pequenas, uma doçura adstringente, quase pretas por fora mas cujo vermelho vivo derramado lembra uma elegância renascentista. Manchas de sangue salpicando as paredes do saco onde vinham. Manchas de sangue espalhadas no lava-loiça branco quando as passo por água, ao desfazerem-se algumas já meio esmagadas no cacho. Naturalmente que precisaram do Sol para aqui chegarem. Eu nada tenho contra o Sol, bem pelo contrário, é impossível viver sem ele e quando está ameno consegue mesmo dar à paisagem uma jovial tranquilidade impressionista. Mas já cumpriu o seu papel, agora deveriam ser outras as sensações a emergir. Mas eu vingo-me com as uvas e o seu sangue, a sua cor, o seu cheiro, o seu sabor. Encho a boca delas, uma a uma, fazendo da minha boca um lagar onde as vou esmagando. E fico apaziguado só de imaginar aquele sangue vermelho a escorrer pela boca e pela garganta. Não há Outono lá fora, pois amarelo e luminoso continua o mundo, mas há um revigorado Outono cá dentro. Melhor sabor do que o desta semente de vinho só mesmo o quente aroma de um estábulo num dia fresco de chuva miudinha. Mas aí já terá chegado o Outono de vez.