13 setembro, 2017

RIR COM RIR SE PAGA



Eu gosto de John Cage e as minhas prateleiras não se queixam com falta de música contemporânea. Não sou, portanto, um inveterado conservador em matéria musical. Mas mesmo que não gostasse, iria sentir um desconfortável arrepio se por acaso visse este vídeo sem a apresentação inicial e a reacção do compositor no final. O que veria, nesse caso, seria o compositor a tocar a sua música enquanto o público vai rindo como se de palhaços no circo ou de uma stand up comedy se tratasse. Um compositor escarnecido e humilhado no tribunal do gosto do cidadão comum. Porém, ouvindo o que diz o apresentador e, no fim, vendo o riso satisfeito do músico, percebe-se que, apesar do escárnio, não existe humilhação. É verdade que, rindo, o público mostra não perceber uma música que, ao contrário, por exemplo, desta, não foi feita para rir.  Mas o compositor também sabe ao que vai, sabe que público é aquele e como vai reagir.

Mas o que me traz aqui não é a ignorância do público em geral, no qual me incluo, face a muito do que se faz  na arte contemporânea, por muitos programas ou folhetos informativos que se consultem sobre o que se vê. Uma arte muito pensada e com um nível de elaboração intelectual que a torna inacessível, acabando o público por sentir o peso da sua ignorância em matéria de arte. Considero, porém, tal ignorância normal e até saudável, se pensar em tanto bluff, disparate e anormalidade que se vê por aí, o que, felizmente, não acontece com toda a arte. Em todos os ramos, da música à arquitectura, passando pela pintura, escultura, teatro ou dança, continuamos a encontrar produções de excelência.

O que desejo salientar é o facto desta situação específica servir para traduzir a relação de muita arte contemporânea com o público em geral,  fazendo tudo para, em nome da criatividade e de uma elevada ousadia estética, se criarem rupturas, legitimando assim um gueto artístico, uma minoria que assim se auto-constrói como elite e que olha com superioridade e até desprezo para o público em geral. Eu tenho todo o respeito por John Cage mas tanto o seu riso como a própria cumplicidade com o riso dos espectadores, não me apaziguam.  As pessoas riem-se dele, divertem-se com o que estão a ouvir mas ele também se ri do riso delas, da sua ignorância face ao que estão a ouvir. Eu, e juro que não tenho a mania da perseguição, ao ver, por vezes, certas exposições onde me sinto a pessoa mais estúpida do mundo, apesar dos artistas não estarem lá, é também esse riso que consigo ouvir, escarnecendo da minha ignorante e primária estupefacção.