10 setembro, 2017

PAULINA AO PIANO NA FESTA DO AVANTE



Numa quinta do Minho, uma fidalga viúva vive sozinha com o  seu filho Tomás, de 15 anos, prestes a ir para a universidade. O rapaz, que é poeta, está apaixonado por Paulina, uma jovem leiteira da quinta, pobre e analfabeta, a quem jura amor eterno. Desesperado por deixá-la, parte para Paris para cursar Medicina. Anos depois, regressa já homem feito, médico, a mente refinada por anos de convívio com a elite cultural parisiense e... doido para se atirar para os braços de Paulina, que nunca esqueceu e continua sua eleita para ocupar o leito nupcial. Quem sabia da história só podia temer o pior: passados os ingénuos devaneios de juventude, como gerir agora o fosso social e cultural entre dois adultos sem nada em comum para partilhar nas horas vivas e mortas da vidinha de todos os dias? Acontece que a Paulina que Tomás vai encontrar é agora uma elegante mulher sentada ao piano, cantando uma ária com uma bela e trabalhada voz. A mãe de Tomás, logo que este partiu para Paris, e certa de que o filho não iria quebrar a promessa, pega em Paulina e leva-a para Lisboa para lhe dar toda a educação própria de uma menina burguesa, e evitando assim um drama mais do que anunciado.

O conto de Júlio Dinis ao qual pertence esta história, chamado «As Apreensões de uma Mãe», acaba da melhor maneira, com felicidade para dar e vender. A sua moral, porém, é pessimista. A história acaba bem porque Paulina deixou de de ser uma simples camponesa para passar a ser uma elegante e educada burguesa. Não fosse isso e cá estaria a pirâmide social a fazer os seus estragos na relação entre dois seres humanos que foram para lá do mero estatuto de actores sociais, entrando na esfera da intimidade pessoal. Os mundos upstairsdownstairs podem viver pacífica e respeitosamente, mas terão sempre as escadas a separá-los e a delimitar os seus estatutos e códigos sociais na mansão Bellamy. Permanecesse ela camponesa e a relação rapidamente estouraria, eis a triste moral da história embora esquecida no meio de uma felicidade que caiu ad hoc da cabeça de uma sensata mãe preocupada com o destino do filho.

Pessimismo, portanto. Mas é caso para dizer, como o faz o senso comum quando quer dar o ar de uma certa graça filosófica, que quando se fecha uma porta, logo se abre uma janela, havendo afinal lugar para de novo sorrir. E qual é a janela? A janela da mobilidade social, toda ela aberta para um jardim de esperança. Se uma pobre e analfabeta leiteira se transforma numa burguesa sentada ao piano à hora do chá, isto significa que todas as pessoas, tendo a sua oportunidade, podem subir as escadas da mansão Bellamy. Eis a lógica do Estado Social, permitir que todas as Paulinas deste mundo se possam sentar um dia ao piano, casando com qualquer médico também deste mundo, ou, melhor ainda, e neste caso algo de impensável no mundo novecentista de Júlio Dinis, ver as próprias Paulinas com estetoscópio ao pescoço.

Sim, é verdade, a mobilidade social funciona como grande virtude social-democrata e de uma democracia avançada que busca níveis mais elevados de igualdade e justiça social. Só que isto também coloca um problema à esquerda, sobretudo comunista, que fica assim presa no seu próprio labirinto, no modo como gere a relação com a parte downstairs da casa. Percebe-se que no tempo de Marx e Engels, houvesse a necessidade de injectar doses maciças de auto-estima na classe operária, preparando-a para a luta de classes. Se a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, a classe dominada precisa de criar os seus próprios valores, as suas próprias necessidades e objectivos. Daí toda a retórica comunista pré-revolucionária, e depois soviética, à volta do orgulho operário e camponês, toda a deferência face às «classes trabalhadoras» como povo eleito rumo à socialista Terra Prometida. Mas o que fazer quando, graças à mobilidade social, quem está em baixo, isto é, dominado, passa a ter como grande objectivo passar para a parte de cima? Experimente-se perguntar a qualquer operário, motorista, caixa de supermercado ou cabeleireira o que desejam para os filhos? Que, em virtude de uma forte consciência de classe, mantenham orgulhosamente a tradição familiar? Não. O grande objectivo de qualquer família, muitas vezes com sacrifício, é lutar para que os filhos tenham uma vida melhor do que os pais, é ver um filho «engenheiro» ou «doutor» a subir as escadas da mansão, sendo isso motivo de orgulho para toda a família, e sendo aquele tanto maior quanto mais humilde for esta.

Não nos deixemos iludir pela esmagadora beleza poética do quadro de Vermeer. Uma coisa é a sua beleza intrínseca, outra o seu significado social. A sua beleza é a mesma das fotogénicas pobres casas de pedra de aldeias onde já ninguém quer viver mas que atraem turistas, sendo algumas até compradas e restauradas para uns fins-de-semana ou dias de férias para umas patuscadas com os amigos. Nós gostamos de ver aquela mulher, o rosto, os braços, o peito farto que alimentou uma ninhada de filhos, as roupas, mas ninguém quer ser aquela leiteira nem deseja aquele trabalho para um filho. Ela, no século XVII, sim, poderia estar conformada com o seu destino e ter orgulho no seu trabalho. Nasceu em baixo e em baixo sabia que iria sempre viver. Hoje, porém, tudo seria diferente. Claro que há hoje uma dignidade social num operário ou agricultor, a qual não existia no tempo de Dickens, Vítor Hugo, Gorki ou Soeiro Pereira Gomes. O almoço do trolha é bem mais apetecível e o Vagão J, entretanto, transformou-se em Intercidades, ainda que em 2ªclasse. Porém, ao contrário de um curso para ascender socialmente, ser «trabalhador» será sempre um recurso. Mesmo que se goste de o ser, é-se-o por falta de várias coisas para não o ser. Ou seja, a consciência de classe será cada vez mais pudica por se saber que se é trabalhador apenas por culpa própria. Os partidos do centro há muito que o perceberam. O Bloco de Esquerda finge que não percebe pois tem muito a perder com o seu eleitorado de gente urbana e socialmente mimada e que adora ser burguesa. O PCP, esse, teima em não querer perceber mas percebê-lo também só poderá significar ter a consciência do seu fim.