20 setembro, 2017

CAMPANHA ELEITORAL


Depois da II Guerra Mundial surgiram as chamadas "democracias populares", as quais de democracia tinham tanto como a quantidade de cabelos que povoavam a caixa craniana do saudoso Yul Breyner. Acontece que a democracia é, por definição e essência, um sistema político "popular", atingindo o seu cúmulo em períodos de campanha eleitoral. Claro que existem democracias mais avançadas do que outras em virtude do povo estar também mais avançado. Pelo que tenho visto ao passar por muitos concelhos neste popular momento de campanha eleitoral, observando com semiótico esmero os cartazes que poluem este já tão visualmente poluído país, sou obrigado a concluir que a nossa democracia ainda está num plano culturalmente rastejante. 

A passagem do cinema mudo para o cinema sonoro não foi isenta de polémica. Os mais puristas e conservadores defendiam que o som iria desgraçar o cinema, roubando a sua essência visual, e aos actores a sua fortíssima expressividade dramática que compensava a ausência de diálogo. Basta pensar no espantoso papel de Gloria Swanson no Sunset Boulevard a fazer um papel que bem poderia ser o dela própria no seu período áureo. Hoje, porém, é absolutamente consensual o grande benefício que foi a introdução da palavra no cinema. Independentemente da qualidade de tantos filmes mudos, é evidente que com a palavra é possível transmitir mensagens e enriquecer a narrativa de uma maneira que sem ela se torna impossível.

Já com a esmagadora maioria dos cartazes eleitorais neste esplendor autárquico, acontece o contrário. O vazio, a estultícia e o ridículo do que lá aparece escrito são de tal modo esmagadores, que só teriam a ganhar deixando apenas os rostos dos candidatos e respectivos nomes, só para sabemos quem são. Tirando um caso ou outro nos quais existe uma mensagem que pode ser decifrada por um cérebro humano num dado contexto concelhio, tudo o que se lê não quer dizer absolutamente nada,  não tem qualquer significado, não remete para nada que nos leve a sustentar racionalmente a decisão de votar num dado candidato. Os nossos partidos políticos atingem, neste sentido, o nível intelectual dos jornais desportivos, que tratam os seus leitores como indigentes. Quando um jornal desportivo coloca na primeira página e em letras gordas uma afirmação de Jorge Jesus, do género "QUEREMOS CONTINUAR A GANHAR JOGOS", está a considerar os seus leitores idiotas. O que no futebol até se compreende pois  um adepto de futebol, como é o meu caso, é um idiota assumido, encontrando-se no domínio do irracional e de emoções que precisam de ser alimentadas como os frangos de aviário com a farinha.

Já na política, não é bonito ver partidos políticos que dizem defender os interesses do povo, tratar este mesmo povo como se se tratasse de uma criança a quem se diz umas coisas tontas para se conseguir que coma a sopa. Esta fotografia de Michael O'Leary, director executivo da Ryanair, tem imensa graça. Ela surge no âmbito das centenas de voos cancelados pela companhia, uma situação caótica e irresponsável que trouxe danos não só a passageiros mas também a todos aqueles que iriam beneficiar com esses passageiros. Isto, claro, não tem graça nenhuma. O que tem, e mesmo muita, é a frase publicitária por detrás do responsável enquanto dá as suas explicações ridículas. A frase, como facilmente se percebe, não significa absolutamente nada. Claro que a publicidade é mesmo assim, sendo rara a frase que possa significar alguma coisa de útil e relevante para se conhecer melhor o produto que se está a vender. Mas, cá está, é como no futebol, estamos no domínio das emoções e de uma ilusão tacitamente aceite pelo consumidor, tal como acontece com o espectador de teatro ou de cinema que sabe ser tudo aquilo mentira, mas aceitando o jogo. A política, porém, desde Platão e Aristóteles, é, e bem, considerada uma das dimensões mais nobres do ser humano. O que se vê por aí, pelo contrário, é o envilecimento do eleitor, desgraçadamente reduzido à condição de alguém que mete um boletim de voto na urna depois de ter passado rapidamente os olhos pela primeira página de um jornal desportivo.