18 setembro, 2017

BRUNO VARELA OU O HERÓI ROMÂNTICO


Embora mais por piada inspirada por um título literário, fala-se bastante da angústia do guarda-redes antes do penalty. Porém, se há momento em que um guarda-redes jamais terá razões para sentir angústia é antes de um penalty, o único golo cuja responsabilidade jamais lhe será imputada. Sabemos que há golos tão fantásticos que não dão qualquer hipótese a um guarda-redes. Mas haverá sempre alguém a dizer que poderia ter feito mais, estar melhor colocado na baliza, enfim, qualquer coisa. Já no penalty o guarda-redes está intrinsecamente protegido pela ideia de um golo natural e previsível. A angústia do guarda-redes é outra, mais vasta e metafísica, explicada pela sua natureza trágica e que lhe confere o estatuto de herói romântico. Num excelente livro chamado O Herói e o Único - O Espírito Trágico do Romantismo, o espanhol Rafael Argullol apresenta vários tipos de herói romântico: o nómada, o suicida, o enamorado, o sonâmbulo, etc., mas esqueceu-se de um: o guarda-redes. Guarda-redes que partilha a mesma natureza de grandes arquétipos trágicos como Antígona, Édipo, Ájax, Hamlet, Macbeth ou Lear, que revelam a extrema solidão do homem que enfrenta o «Destino agigantando a sua desnuda individualidade», e que, acrescento eu, atinge o seu paroxismo nesse instante distópico que é o frango, fazendo instalar a desordem no plano racional elaborado para a equipa pelo demiurgo que se senta no banco.

Para um positivista pitosga que só vê factos à frente, uma equipa de futebol são 11, mas, no fundo, são 10+1 ou 1+10. Esta é que é a realidade, como diria, no seu jeito oracular, Octávio Machado. Todos os jogadores  de campo atacam e defendem e, apesar de teoricamente cada um deles ocupar uma posição no terreno, podem movimentar-se por todo o campo, significando isto que surgem como colectivo ou massa, realidade consubstanciada numa mesma cor de camisola partilhada por todos. Durante um jogo, todos esses jogadores, sem excepção, cometem erros: golos inacreditavelmente falhados, jogadores comidinhos pela velocidade de outros, livres directos mal marcados, passes errados, cantos inócuos, faltas cometidas sem necessidade, jogadores que não saltaram o que deviam para evitar um golo de cabeça, enfim, defesas que parecem manteiga. Mas nunca se diz que uma equipa perde um jogo por causa de um jogador individualmente considerado, mesmo que se falhe um golo de baliza aberta. Será criticado, chamar-lhe-ão «nabo» mas, no implacável tribunal dos adeptos desiludidos, nunca irá sair do campo na condição de vítima sacrificial. Mesmo situação tão dramática como um auto-golo tem atenuantes, pois, apesar da gravidade da consequência, como gesto técnico deficiente está no mesmo plano de todos os outros ao longo do jogo: colocou mal o pé ou a cabeça na bola, estava pressionado por um adversário que o obrigou a errar ou ainda um infeliz ressalto do qual não teve culpa. Mesmo o jogador que falha um penalty na final de um mundial ou de uma Liga dos Campeões beneficia de uma indulgente compreensão pois sabe-se que mais cedo ou mais tarde alguém irá ter de falhar. Foi aquele, mas se não fosse teria que ser forçosamente outro, ou seja, o erro vai mesmo existir, estando só cinicamente à espera do seu autor.

Mas depois temos o guarda-redes, essa individualidade única e solitária no seu território, como Zaratustra na sua montanha, carregando o peso do mundo às costas. Solitário, por um lado, por ser alguém circunscrito a esse território, assistindo, com uma distância teórica, ao movimento da bola pelo campo, intervindo apenas quando a bola se aproxima. O que lhe dá um estatuto ontologicamente negativo: enquanto os outros participam na construção do golo, podendo todos eles marcá-lo (o que acontece cada vez mais no futebol moderno, onde já surgem defesas isolados na baliza contrária), o guarda-redes apenas existe para o negar. Vista a coisa sob uma hegeliana ciência da lógica, os jogadores de campo estão no domínio do ser, enquanto o guarda-redes está no domínio do não-ser, da pura negatividade. Claro que há uma harmoniosa totalidade nesta relação dialéctica entre o ser dos jogadores de campo e o não-ser do guarda-redes, mas este emergirá sempre solitariamente na sua identidade, contraditória face à dos outros.

Depois, porque o seu erro não é um erro qualquer: não é o erro de «um jogador» que erra mas o erro «do jogador» que não pode errar. Quer dizer, poder, pode, e tanto pode que erra, mas a situação é mais complexa do que parece. Ao contrário do que pode parecer, o erro de um jogador de campo não faz parte do domínio da contingência mas da necessidade. Há contingência, sim, pois não se sabe onde e quando vai errar, havendo situações em que errou quando poderia não ter errado e situações em que não errou quando poderia ter errado. Mas quando o jogador entra no campo já sabe que vai cometer erros, o erro faz parte da própria essência do jogo, o que até leva alguns filósofos a defender a tese segundo a qual vence a equipa que comete menos erros. Já o erro do guarda-redes é marcado por um plano moral. Claro que é domínio do «poder ser», e, neste aspecto, um guarda-redes, tal como os outros, sobe ao relvado limitado pela presença do «erro radical». Mas um é o domínio do «poder ser», outro será o do «dever ser». Quando Deus criou Adão e Eva, sabia bem o que estava a fazer: dois seres finitos, frágeis, atirados ao mundo. Porém, não deixou de os avisar, impondo uma condição. Daí que, se uma equipa de futebol tivesse sido acabada de criar por Deus, o guarda-redes seria o Adão da equipa, o único que vive o conflito trágico de quem é atirado para a baliza para poder errar mas sem a liberdade para o fazer. Entretanto, quando o erro apresenta a bíblica dimensão do frango, acrescenta-se à solidão inerente ao seu posto, a vertigem de uma brutal Queda sem redenção. O frango que dita uma derrota representa uma mácula de tal modo irredimível no final dos 90 minutos que, houvesse futebol na Idade Média, e Dante teria atirado o guarda-redes frangalheiro para o nono círculo do Inferno, ao qual seriam poupados todos os outros.

Quando uma equipa sofre o golo que dita ou pode ditar a derrota, vê o mundo desabar. Quando esse golo é um frango protagonizado por aquele em quem confiaram para defender as suas redes, vêem o mundo desabar ainda mais dramaticamente mas, tal como referi atrás, do mesmo modo que o guarda-redes assiste afastado ao desenrolar como elemento exterior, no momento do frango todos os outros 10 assistem, unidos e como elementos exteriores, à Queda do seu guardião. Guardião que vê o mundo desabar mas, como se isso não bastasse, vê-se também a desabar com o mundo. E nem chega a ser assassinado pela consciência implacável dos adeptos. Antes disso, já dentro da sua cometeu suicídio.