09 setembro, 2017

BECO SEM SAÍDA



Alguém precisa de explicar à menina que, a continuar assim, não vai deixar de andar baralhada. A sua dúvida pressupõe aquela ideia geral de que valores como liberdade, igualdade, justiça, verdade, conhecimento ou felicidade são interdependentes e associam-se num todo harmonioso. No seu caso específico, a liberdade e a felicidade. Mas não está sozinha. Trata-se de uma ideia tanto comprada a nível individual como a nível político, como se vê no pensamento utópico que projecta sociedades perfeitas nas quais se excluem os conflitos que fazem inevitavelmente parte das sociedades normais e imperfeitas em que nos coube viver.

O filósofo e historiador das ideias Isaiah Berlin passava a vida a dizer que «Liberdade para os lobos significa muitas vezes morte para os carneiros». Claro que podemos sonhar com um mundo onde lobos e carneiros gozem de liberdade absoluta no quadro de uma sociedade justa onde todos podem ser felizes. Mas esse mundo não existe. Se deixarmos os lobos à solta, lá se vai a igualdade, a justiça e a felicidade de muitos. Mas se também desejarmos forçar a igualdade, restrições à liberdade terão de se impor. Mais. Enquanto filhos dos gregos e dos romanos damos valor à justiça, como cristãos introduzimos a misericórdia e o perdão no mundo. Mas então, dirá Maquiavel, como conciliar isto perante alguém que cometeu um crime horrível?  Como diria um qualquer filósofo português, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. E será que conhecimento traz necessariamente felicidade? Não será muitas vezes o contrário, isto é, o conhecimento de uma verdade a trazer infelicidade, significando a ignorância um estado de tranquilidade? E liberdade e felicidade serão assim tão interdependentes? Será que todos os europeus são mais felizes do que todos os oprimidos norte-coreanos, só porque são livres e os segundos não? Será que com o 25 de Abril os portugueses passaram automaticamente de um estado de infelicidade para um outro de felicidade? E uma pessoa que tenha 5 opções pela frente é só por isso mais feliz do que se outra que tenha simplesmente que fazer o que não pode não fazer, ou o simples facto de ser mais feliz faz com que tenha mais opções e seja mais livre?

Não estou a querer dizer que liberdade e felicidade são incompatíveis. Apenas que não são necessariamente compatíveis e interdependentes. Concluo, assim, que sendo tão grande a complexidade da vida, esta não se compadece com perguntas tão estreitas e fechadas como as da menina, levando-a a bater  num muro intransponível e cujo resultado, como não pode deixar de ser, é ficar com a cabeça a andar à roda.