23 setembro, 2017

AH, AH, AH, AH, STAYIN' ALIVE, STAYIN' ALIVE



Creio que o que me perturba na festa da democracia, ou melhor, na folia carnavalesca da democracia, é o mesmo que sempre me perturbou nas discotecas: o ruído. Porém, na discoteca, o ruído estava associado ao prazer de dançar ou de ouvir aquele tipo de música, o que até nem era o meu caso. Já na festa da democracia o ruído para nada serve a não ser para a democracia se festejar a si própria. Uma festa autofágica na qual se celebra a liberdade de ser patético e ridículo, de fazer barulho e de se ser eleito ainda que não se saiba muito bem porquê. Confesso ser bem mais agradável, e até saudável, o silêncio de uma ditadura do que o chinfrim histérico da democracia. Mas também compreendo, apesar do chinfrim, ser a democracia, ao menos filosoficamente, um sistema mais arejado do que uma ditadura. Por isso, como cidadão, resigno-me a aceitar a democracia como o melhor dos sistemas. Já como pessoa sensível que sou e faço tenção de continuar a ser, agradecia que a democracia me deixasse o mais possível em paz.

Infelizmente, não sou rico para me poder dar ao luxo de evitar sair de casa para trabalhar ou exilar-me numa alpina montanha mágica ou ilha grega bem longe da pátria em períodos eleitorais. Tenho pois que viver rodeado de candidatos a presidentes de câmara, de assembleias não sei das quantas ou de épicos pretendentes ao olímpico lugar de uma junta de freguesia, que mais parecem Testemunhas de Jeová anunciando o paraíso, não na Terra mas lá na terra. Para mim, a democracia é assim como ir à casa de banho, uma coisa que tem de ser. Mas tirando os que têm prisão de ventre, quem fica feliz por ir à casa de banho? Com a democracia também é um bocadinho assim. Por que raio hei-de ficar feliz pelo facto de o presidente da câmara ser o Manuel Germano? Ou ficar excitado porque a Assembleia ou lá o que aquilo é, ficou com a composição X em vez da Y e o presidente da junta vai ser o senhor Armando dos seguros ou a dona Anabela que é professora num agrupamento ? Mas que raio contribui isso para a minha felicidade, ainda que se trate de uma felicidade cidadã, seja lá o que isso for? Eu até consigo perceber que as pessoas sintam alguma motivação para votar porque se sentem valorizadas, cidadãs, dignas protagonistas do processo histórico. Agora, mais do que isso, porquê? Já disse, aceito a democracia mas adoraria que a democracia não pensasse excessivamente em mim. Ela que não se preocupe comigo pois eu estou bem e recomendo-me. Ela, coitada, tão parva que anda, nem por isso.