08 setembro, 2017

A MÃO

Brassaï

Em  1899 está o dr. Sigmund Freud a publicar, em Viena, A Interpretação dos Sonhos, livro mais perigoso do que a obra do Marquês de Sade e o programa de Manuel Luís Goucha juntos. Dois anos depois, com 21 anos, a menina Alma, ainda sem Mahler no B.I. mas o Schindler de seu pai, está apaixonada por Alexandre von Zemlinsky, seu professor de música, homem fisicamente de fugir mas intelectualmente superior. É a sua segunda relação amorosa num currículo algo complexo, depois de Gustav Klimt, que perdeu a cabeça por ela mas, querendo esta chegar ao virgem ao casamento, teve apenas direito a uns fugazes beijos sem consequências de maior, digamos assim.

A Viena de Alma é a Viena de Freud mas também de Klimt, Kokoschka, Kraus, Stefan Zweig, Musil, da família Wittgenstein, enfim, de Mahler. Uma Viena de  aristocratíssimos salões literários que rivalizavam com os de Paris, e de uma burguesia que procurava a cultura como forma de ascensão social. Alma, rapariga de boas famílias, foi, desde muito cedo, refinadamente educada no campo da música, da pintura, da literatura, das línguas, da filosofia, tendo depois ao longo da vida escolhido maridos e amantes de acordo com tão superior desígnio. Tudo, porém, tem um limite, e se a luz brilha na tão afrancesada razão ou nos candelabros dos cultos salões vienenses, também a haverá em muito fogo que arde sem se ver, como diria, neste caso, não o poeta, mas um bombeiro de outros incêndios. No tal Verão de 1901 e apaixonada por Zemlinsky, escreve no seu diário:

«Desejo loucamente os seus beijos, não esquecerei nunca o contacto da sua mão no mais profundo de mim como uma cascata de chamas! Uma tal felicidade inundou-me! Podemos na verdade ser completamente felizes! Existe a felicidade completa! Aprendi isso nos braços do meu bem-amado. Com uma pequena [palavra ilegível] mais, teria subido ao sétimo céu. Mais uma vez, tudo o que lhe diz respeito me é sagrado».

São conhecidos os problemas de natureza sexual entre Alma e Mahler ao longo do seu atribulado casamento. As mãos do compositor podiam ser perfeitas para dirigir uma orquestra mas, na íntima penumbra do lar, tudo leva a crer serem um verdadeiro desastre, para além da sua inépcia para interpretar os desejos da mulher. Para Mahler, qual Pigmalião moderno, Alma não passava de uma menina inteligente, destinada a viver numa espécie de Olimpo cultural e artístico, rodeada de arte, livros, música e imponente arquitectura. A Verdade é que Mahler, ainda que pensando conhecer bem a sua consciência e personalidade, nunca chegou a conhecer as verdadeiras profundezas de Alma. Saberia ela não estar casada com um homem qualquer: Gustav não era Gustav mas Gustav Mahler. Todavia, para ela, no mais profundo da sua inacessível e secreta alma, nunca terá passado de um homem superficial.

Não sabemos, e com que pena, qual a palavra ilegível que, para Alma, servia de chave para abrir as portas do sétimo céu. Admito que haverá sempre mistérios por desvendar nesse obscuro  e misterioso continente chamado mulher, que haverá sempre mais uma palavra por descobrir. É assim e pronto e tem de se viver com isso. Outra coisa é ser, como Gustav, esse distraído e desajeitado homem que vivia para a música,  absolutamente analfabeto.