17 agosto, 2017

PATRIMÓNIO OLFACTIVO DA HUMANIDADE

A Festa de Babette [Fotograma]

Dos cinco sentidos, a visão é o que mais se assemelha ao acto de agarrar com a mão, de prender, sendo por isso o que melhor pode conservar sensações que vão desaparecendo ao longo do tempo. Graças à pintura ou simples gravuras, continuamos a ver coisas há muito desaparecidas, coisas tão diferentes como uma cidade medieval, peças de vestuário, um instrumento agrícola, uma burguesa sala holandesa do século XVII ou mesmo simples práticas do quotidiano como jogar às cartas ou um baile camponês no século XVI. Com os outros sentidos, bem mais evanescentes, tudo se torna mais complicado. Por exemplo, o olfacto. Nós podemos ver milhares de pinturas ou fotografias antigas reproduzindo os mais variados ambientes mas perdemos os cheiros que faziam parte da vida quotidiana de milhares de pessoas que vemos nessas pinturas e fotografias.

Mas também já estive, num museu, perante um artefacto composto por bombas de borracha iguais às das antigas buzinas, cada uma associada a um cheiro. Apertando cada uma delas saíam por uns um tubos cheiros como o da canela, da madeira, de livros antigos, da relva acabada de cortar e outros. Seria interessante, no caso de ser cientificamente possível graças a um qualquer processo químico, construir um património olfactivo da humanidade, reunindo o maior número possível de cheiros existentes numa dada realidade social e histórica. Por exemplo, quando se deixar de publicar livros e estes forem todos velhos, será possível dar a conhecer um cheiro que entretanto desapareceu como é o de um livro novo. São imensos os cheiros que já se perderam, como são imensos os que se irão perder um dia. Lembro-me de entrar num Lidl de um país estrangeiro e de sentir exactamente o mesmo cheiro que sinto quando entro no Lidl de Torres Novas. O Lidl tem, portanto, um cheiro próprio, sentido por milhares de pessoas ao longo de vários anos e que um dia irá desaparecer. Não é que o cheiro do Lidl seja assim tão importante para memória futura. Mas é um cheiro que existiu em dada altura da história e cuja identidade é tão individual e única como o do Chanel nº5 ou da lenha a arder, e que foi conhecido por muitas pessoas que irão ser vistas através de fotografias num registo puramente histórico. Um dia, haverá pessoas a ver fotografias de um Lidl ou de um folheto do Lidl mas que nunca chegarão a conhecer o cheiro do Lidl. Hoje, ainda existirá o cheiro de uma vacaria, de um chão de madeira acabado de encerar ou do sabão azul, mas quantas pessoas já nascem, vivem e morrem sem nunca terem chegado a conhecer qualquer um deles? Todas as casas têm um cheiro próprio. A casa onde vivo tem um cheiro próprio. Não é mau mas também não é bom. Não faço ideia por que o tem, de onde vem. Será com certeza uma conjugação de vários factores. Mas é um cheiro único que não conheço em qualquer outra casa, o cheiro de uma casa portuguesa da primeira metade do século XXI. Cada carro tem igualmente um cheiro tão próprio como a voz ou o rosto do seu dono. Se, numa prova cega, nos dessem frascos com os cheiros de casas ou carros que conhecemos bem, seríamos capazes logo de os identificar.

Seria pois interessante organizar museologicamente o património olfactivo através de diferentes arquivos temáticos: casas e carros de pessoas comuns, supermercados, transportes públicos, mercados, comidas, ruas, jardins ou mil e um objectos que podem ir de uma toalha de banho com vestígios de protector solar a um a candeeiro a petróleo. Pode parecer uma tarefa algo espúria ou caprichosa, mas só a quem alimenta aristotélicos preconceitos face a sentidos considerados menos nobres. Graças às gravuras da época, conhecemos hoje, visualmente, um animal há muito extinto como o dodô. Mas como seriam os sons do dodô, o sabor do dodô, a sua textura, o seu cheiro? Seriam porventura menos reais do que a sua figura dada à nossa visão? Só porque não se vê, um cheiro não é menos real do que uma cor ou uma forma. E por que não haveria de ser excitante podermos aceder ao cheiro de uma sala holandesa do século XVII ou de uma cozinha francesa do século XIX, tal como lá chegamos através da pintura? Claro que há uma nobreza teórica na visão que faz com que não seja por acaso eleito o sentido mais importante e, de todos, o último a sacrificar. Mas para percebermos como é empobrecedor conhecer a história sem nariz basta pensar no que seria viver, hoje, sem ele, e no que iríamos perder do mundo e da vida sem ele. Se, um dia, pudermos corrigir essa lacuna, será um grande feito para a humanidade, metendo o nariz onde também somos chamados, retirando à visão a exclusividade do conhecimento.