20 agosto, 2017

O TEMPO SUSPENSO



Dizia eu que, graças à fotografia, pintura ou desenho, a visão é, de todos os sentidos, o que mais facilmente conserva coisas desaparecidas e às quais podemos depois aceder. Mas calhou ver há dias Cristiano Ronaldo a festejar mais um golo, o que me levou a pensar no modo como os jogadores festejam golos ao longo de décadas, e que hoje podemos ver graças, não à fotografia ou pintura, mas à posse da imagem em movimento. Há diferença entre o que se pode conhecer numa imagem estática e o que já exige uma imagem em movimento. Eu vejo o fabuloso retrato de Leonardo Loredan pintado por Bellini e posso dizer que vejo o verdadeiro rosto do doge de Veneza. Olho os rostos de Rossini, Baudelaire ou George Sand imortalizados por Nadar e possuo-os como se estivessem à minha frente na sala de espera de um consultório. Vejo uma natureza morta de Caravaggio ou um arranjo floral de Heinrich Kühn e sei que é possível repeti-los agora com frutos e flores ainda vivos. E vendo a fotografia de uma rua de Paris durante a Comuna, fico a saber como era uma rua de Paris durante a Comuna.

Mas uma coisa é vermos edifícios, cidades, paisagens naturais, pessoas, peças de vestuário, interiores de casas, hábitos quotidianos como os que nos são deixados numa tela de Bruegel, Vermeer ou Hogarth, outra será ver jogadores de futebol a festejarem a marcação de golos. Sei que não é fácil mas tentemos imaginar que o cinema ainda não foi inventado. Como iríamos perceber o modo como Eusébio, José Torres, Coluna, José Augusto, Puskas, Pelé, Bobby Charlton, Beckenbauer, Cruijff ou até Maradona o faziam? Pensemos no actual movimento típico de Ronaldo: corrida veloz de braços abertos, ganhando depois balanço para um salto seguido de uma pirueta, até finalmente posicionar o corpo tenso para o libertador grito final, transformando cada relvado numa margem do Ipiranga. Trata-se de um festejo que só uma imagem em movimento poderá revelar, nunca através da congelação de um ou vários dos muitos instantes que compõem toda uma encenação estudada ao pormenor, ao contrário do que acontecia com os velhos festejos de outrora os quais eram resultado de uma idiossincrasia gestual e corporal espontânea. Nenhum daqueles jogadores o comemorou daquela maneira, não por uma questão de moda, que as há (por exemplo, jogadores brasileiros irem para a bandeirola de canto dançar samba), mas pela impossibilidade histórica de o fazer. E não me refiro apenas ao contraste espontâneo/estudado. Ainda hoje há formas de festejar espontâneas, sendo porém impensáveis alguns dos movimentos corporais daqueles velhos jogadores. Alguém dá hoje os saltos de Gerd Müller ou de Eusébio enquanto correm, esticando o braço direito para cima como se estivessem a dar murros no ar ou a libertarem-se de um pedaço de fita cola na mão? E os saltos de José Torres ou José Augusto como se estivessem numa cama elástica? Não menos interessante, é a diferença temporal entre a marcação do golo e o momento da comemoração colectiva em que os jogadores parecem abelhas numa colmeia, notando-se a tendência moderna para fazer render o mais possível a demarcação individual do jogador que marca o golo. Não podermos ver esse movimento mas apenas o instante congelado, surge assim como uma espécie de amputação de uma parte da realidade, à qual chegamos apenas por um exercício de imaginação reconstitutiva.

Ora, o que é válido para o simples festejo de um golo, é válido para todo e qualquer tipo de movimento do corpo. Por exemplo, nós lemos um romance do século XIX onde o escritor descreve o aplauso das pessoas que assistem a uma ópera, pessoas que se cumprimentam ou que se encontram num velório. Bater palmas, cumprimentar ou estar num velório são actos mais complexos do que parecem e para o entender basta pensar no modo como ainda hoje as pessoas o fazem consoante o seu contexto social. Não se batem palmas em S. Carlos como numa festa de aldeia. O movimento fúnebre dos corpos num funeral de classe média alta não é o mesmo que vemos num funeral de gente humilde. E para além do cumprimentar, poderíamos ainda falar dos actos de comer, andar, sentar, ler, falar, rir e mil e uma situações que impliquem um movimento do corpo. O cinema nasce em 1895 e, a partir daí, ainda que muito toscamente durante décadas, começamos então a poder ver a vida em movimento. Antes disso, e por muito realistas que sejam a fotografia ou a pintura, resta-nos apenas uma irrecuperável e fantasmática versão daquela. Ver pinturas ou fotografias sobre partes da vida onde há movimento, lembra-me os corpos calcinados de Pompeia ou um filme de ficção científica que vi há muitos anos, em cuja acção ocorre uma suspensão do tempo, tendo as pessoas ficado estaticamente na posição de acordo com o que estavam a fazer no momento. Como é o caso de Pelé nesta fotografia.