30 agosto, 2017

MENINOS E MOÇOS



A imagem não é grande coisa mas é a melhor que consigo arranjar desta Cena de Aldeia, de Augusto Roquemont e que pode ser vista com olhos de ver no museu Soares dos Reis. O centro do quadro é um chafariz de Guimarães, tendo ao lado um passo da Via Sacra. Sem temer cair no exagero, toda a cena parece uma versão minhota de um arcádico quadro de Poussin, conferindo, neste caso, à ruralidade nortenha um verdadeiro estatuto de locus amoenus, um perdido e já irrecuperável paraíso, num mundo onde a cidade, com os seus ritmos, as suas ocupações e sobretudo as suas idiossincrasias associadas à Queda, vai ganhando cada vez mais ascendente. Tudo é paz e serenidade bucólica nesta cena, onde o trabalho, o prazer e a espiritualidade formam um todo harmonioso, sem contradições e dissonâncias. Porém, e ficando já registada a graça da adversatividade com que inicio a frase, no mesmo dia em que vi o quadro, calhou ler no JN duas notícias de crimes ocorridos em aldeias do norte de Portugal, um deles, envolvendo vizinhos com questiúnculas relacionadas com terrenos, a outra por causa de desentendimentos familiares cujo motivo entretanto esqueci. Infelizmente, não se trata de uma mera e triste coincidência, traindo pelas costas o virgiliano bucolismo da cena sugerido pelo pintor. 

Augusto Roquemont, filho de um príncipe alemão, veio parar a Portugal por mero acaso, depois de ter estudado em Paris e feito a sua formação artística em Itália: o pai, militar, estando cá a apoiar a causa miguelista, chama-o em 1828 para se tornar seu secretário particular. E por cá ficou até morrer, sempre ligado a famílias da alta burguesia nortenha. Não surpreende, por isso, ver uma cena rural apresentada deste modo entre o idílico e o pitoresco. O pintor nada tem que ver com o povo que aqui apresenta, o pintor não vive nesta aldeia, por isso, mais do que um retrato fiel do quotidiano que gira à volta deste chafariz, o que temos é uma idealizada construção urbana de uma cena de aldeia cuja depuração a transforma numa caricatura. Aliás, em perfeita sintonia com o movimento  romântico (igualmente urbano) da sua época, bastando lembrar a Viagem do dandy Garrett, que sai de Lisboa para entrar na província profunda, com o meu deslumbramento exótico de um explorador que penetra cada vez mais no desconhecido território africano.

Augusto Roquemont morreu em 1852, como morreram o seu mundo burguês e o mundo rural por si retratado. Todavia, mudando a burguesia e o mundo rural, mantém-se aquela urbana e universitária esteticização do povo, embora por razões diferentes, tanto à esquerda como à direita, associando-o a uma espontaneidade, autenticidade, pureza, genuína ligação às raízes, que teima em resistir aos avanços de um universalismo social e cultural. Mas basta viver numa aldeia ou, para quem não lá vive, ler diariamente o Correio da Manhã ou o Jornal de Notícias, para logo se desvanecer esta imagem folclórica do bom povo. Não quero dizer que ao sair da cidade se vá encontrar um país de homens bêbedos a bater nas mulheres, de crianças ranhosas à bulha ou a atirar pedras aos gatos, de vizinhos a matarem-se com enxadas e caçadeiras, de mulheres deprimidas a incendiar florestas ou, numa visão mais escatológica, pastores analfabetos satisfazendo a libido com inocentes ovelhas. Se uma caricatura utópica do povo não faz sentido, uma caricatura distópica, ainda fará menos. Pretendo apenas registar o facto de o povo continuar a ser alvo de uma mistificação, a qual, ao libertá-lo de características sociais, psicológicas e morais que supostamente infectam o artificial e desumanizado mundo urbano, revela uma superioridade e paternalismo antropológico que faz da aldeia um Zoo habitado por gente em vias de extinção e que deve ser protegida da ameaça urbana.