23 agosto, 2017

CHAMAR NOMES AO PASSADO


Apesar da solenidade arquitectónica que espalha um perfume imperial sobre a capital francesa, o Arco do Triunfo não deixa de ser um monumento cómico. A história é assim um bocadinho como os romances de Kafka. Tanto podemos olhar para ela e sentir o acre odor do drama, como, ao carregar noutro botão, rir às gargalhadas, que parece ser o que acontecia por vezes com o escritor checo quando escrevia os seus romances. E como eu o entendo, tendo até pena de que os Monty Python nunca tivessem adaptado ao cinema um romance como O Castelo

O Arco do Triunfo, e atenção mesmo à semântica para não se perder o efeito cómico na perfunctória rotina do nome, foi mandado erguer em 1806 por Napoleão para comemorar as grandes vitórias militares do seu império. Entretanto, estava ele a ser construído e os franceses a irem já de vez embora de Portugal, a morrerem à fome na neve russa, a sofrer grandes desgraças em Leipzig e Waterloo e o próprio corso com a mania das grandezas imperiais a fazer contas à vida na ilha de Elba, as quais ficarão de vez resolvidas na insular pasmaceira de um minúsculo grão de areia perdido no oceano, quando ainda se ouvia o eco dos risos dos vencedores, em Viena. Em suma: em 1804 está Napoleão a auto-coroar-se imperador, em 1806 manda erguer o Arco do Triunfo, em 1812 está de mala feita rumo ao pavilhão dos derrotados. Tudo isto, só para dizer que a história é mesmo uma coisa complicada, um bocadinho assim como aqueles fogos que nunca se sabe para onde estão virados por causa da imprevisibilidade dos ventos, para desespero dos bombeiros.

Pelas mesmas razões, é igualmente cómica a primeira página desta edição do passado mês de Julho do moçambicano O Sol. Não pelo jornal em si mas pela publicidade à glamorosa sapataria Just Man. Também não pela loja mas pelo nome da avenida onde se situa. Eu, como Zaratustra, gosto mais de rir do que de chorar, ficando assim até agradecido a quem um dia resolveu dar o nome à avenida, fruto do ar do tempo. Mas não deixa de ser um aviso para todos aqueles que, com as circunvoluções demasiado insufladas por esse ar, vão logo a correr mudar os nomes de cidades, ruas, avenidas, escolas ou pontes. Quando foi dado o novo nome a esta avenida, os chineses eram pobrezinhos como os moçambicanos, homenageando o senhor que a baptizou. Acontece que os chineses,  e cá está a história a fazer das suas malandrices, fartaram-se de ser pobrezinhos e de se inspirar no senhor que deu o nome à avenida, resolvendo enriquecer. Hoje, os moçambicanos continuam orgulhosamente pobres mas têm uma sapataria rica numa avenida que tem o nome de quem fazia questão de continuar a manter os chineses pobres e a inspirar a pobreza de outros. Sim, é um bocado confuso, mas não deixa de ser cómico como o castelo de Kafka.

Podemos ter três visões sobre a relação da história com a onomástica no espaço público: uma reaccionária, uma conservadora e uma revolucionária. Começo pelas pontas. A reaccionária seria começar agora a querer dar nomes de pessoas, factos ou datas em memória de um passado que se foi de vez, inspirado numa nostalgia que, podendo ser pessoalmente legítima, é publicamente absurda. Não concordo, mas aceito quem pense que Portugal só lá vai com dois ou três Salazares e que é no seu exemplo que se deve inspirar. Tudo bem, mas ter agora o descoco de dar início a um abaixo-assinado para dar o seu nome a uma rotunda de Torres Novas, seria de um reaccionarismo bacoco, o qual até rima com descoco. Mudando agora de registo, sabemos que os revolucionários são pessoas impacientes e com uma péssima relação com o lento movimento dos ponteiros, tanto em relação ao futuro como em relação ao passado. Um dos passatempos preferidos dos revolucionários é puxar o botãozinho do relógio que permite acertar o calendário e os ponteiros, para andar rapidamente com eles para fugir depressa do passado e também depressa chegar ao futuro que tanto anseiam. Isso fez com que, por exemplo, os depois derrotados revolucionários franceses que antecederam o depois derrotado Napoleão, chegassem a mudar o calendário só para fazer esquecer o passado, assim mais ou menos como um computador que foi formatado para limpar de vez os vírus. Ou com que na Rússia soviética, S. Petersburgo passasse a chamar-se Leninegrado e Volgogrado, Estalinegrado, ou que em Portugal Salazar fosse transformado em 25 de Abril, fingindo que o passado nunca existiu e que o presente passa a ser propriedade de quem acaba de lá chegar, assim como a criancinha que é dona da bola e que faz o que quer dela. Depois há ser conservador. Ser conservador, como bem explica João Pereira Coutinho no seu pequeno mas excelente livro Conservadorismo, não é o mesmo que reaccionário. Como dirá Anthony Quinton, um reaccionário não passa de um «revolucionário do avesso», isto é, em vez de revolucionar para a frente para chegar a um risonho e luminoso futuro que não existe nem pode existir, deseja revolucionar para trás, regressando a um passado igualmente risonho e luminoso que nunca existiu.

Ser conservador é outra coisa. O passado é isso mesmo: passado, devendo ser protegido de modas fugazes. Lenine e Estaline são duas personagens que fazem parte de um regime que durou algumas décadas, enquanto o rio Volga continua a ser um grande rio russo e o maior da Europa, e Pedro, um grande nome que ficou preservado das irónicas contingências da história. Daí aquelas cidades voltarem aos seus anteriores nomes, anulando-se a impaciência revolucionária de quem só tem olhos para um futuro que um dia se irá transformar num triste passado. Mas se uma nova rua ou praça tivessem sido inauguradas com esses nomes, é com esses nomes que deviam ficar. Até porque o que em tempos foi terrível pode com o tempo ganhar um encanto vintage. Eu não tenho qualquer nostalgia do dr. Salazar. Mas gostaria bem mais que a ponte 25 de Abril tivesse o seu nome, assim como uma espécie de produto da loja Vida Portuguesa, da Catarina Portas. «Ponte Salazar» teria assim o mesmo encanto antigo de uma lata de atum Tenório, da pasta medicinal Couto, do restaurador Olex, de um sabonete da Ach. Brito, das línguas de gato Paupério ou daqueles brinquedos de madeira e lata que antigamente se vendiam nas feiras. Atenção, eu gosto do 25 de Abril. Mas o 25 de Abril teria sempre que acontecer, sendo assim uma espécie de supositório enfiado no rabo de Portugal para limpar o organismo, após prescrição histórica. Mas pronto, fez-se, acho muito bem que se tenha feito e que se tenha dado o seu nome a muita coisa que ainda não o tinha ou que fosse meio deslavado. Agora, mudar nomes antigos é tão lesivo como deitar abaixo casas antigas ou deitar fora um Trabant, um capacete nazi, uma farda da mocidade portuguesa ou as canções do António Calvário.

Os nomes são também uma aula de história e pensar neles não significa querer que a história ande para trás mas apenas ter consciência dela. Aliás, não deixaria de ser uma ironia histórica ver hoje o nome de um político paroquial, provinciano, tacanho e fuinha como Salazar, associado a uma bela ponte de uma capital vibrante, moderna, cosmopolita, aberta. Como já se deve ter percebido, não acho boa ideia terem dado, por um infantil e revolucionário impulso, o nome de Mao Tse Tung a uma avenida de Maputo que, por sua vez, se chamava Lourenço Marques. O que está feito, está feito. E agora que o tem, assim deve permanecer, como memória de um tempo, acabando também, ironicamente, por ter o mesmo glamour vintage de um Trabant, de um capacete nazi, de uma farda da mocidade portuguesa ou das empolgantes canções revolucionárias chinesas como «A Longa Marcha» ou «Navegar os Mares Depende do Timoneiro». Tudo coisas que, vistas bem as coisas, podem dar vontade de chorar. Mas perante as quais, como num romance de Kafka, há que, também, tantos anos depois, saber rir.