21 agosto, 2017

ANTÓNIO, ANTÓNIO

[Grupo de turistas portugueses, aproximando-se perigosamente da Fontana di Trevi, vindos da Piazza Navona, depois de terem estado a comer gelados na Giolitti]


Comprei há dias o livro "Itália- Práticas de Viagem", de António Mega Ferreira. Não, apesar do título, como manual prático para uma putativa viagem ao país de Silvio Berlusconi mas pelas várias e interessantes referências à cultura italiana, a qual prezo bastante. Num dos capítulos dedicados a Roma, o autor parte de uma fotografia onde se vê Pasolini, nos anos 60, sentado na esplanada do Caffè Rosati. Percebe-se o fascínio de Mega Ferreira por esta fotografia, que decorre do seu também indisfarçável fascínio pelo realizador e escritor comunista. Explica depois ser o café, já naquele tempo, um ponto de encontro de intelectuais de esquerda, ao invés do Canova, mesmo ali ao lado, frequentado pelos de direita. Daí nunca ter entrado no Canova, sendo sempre o Rosati o seu eleito para "tomar um café e um delicioso panino de prosciutto cuoto", desde que lá entrou pela primeira vez em 1979.

Há muitos anos que sigo o percurso de Mega Ferreira, homem que respeito intelectualmente, não precisando desta sua referência ao Rosati para saber que é um homem de esquerda. Não deixa por isso de surpreender o que escreve logo na página 12, quando lamenta o incómodo de ter que se misturar com os turistas que vêem em Itália um parque de diversões e sem olhos para a Itália secreta que só pessoas como o autor do livro conseguem ver: "(...) aconselha-se o semicerrar dos olhos até que a poluição visual se dilua, uma espécie de exercício mental de «limpeza» das vistas, ignorando-se as mulheres gordas, os homens barrigudos e as crianças malcriadas, concentrando o olhar apenas naquilo que vale a pena ser visto". O cenário, assim descrito de modo tão escatológico, é de profundo horror, fazendo-me até lembrar, não, e ao contrário do que se possa pensar, o Coronel Kurtz do Apocalypse Now, mas o meu estado de espírito, já lá vão 30 e tal anos, ao sair da sessão da meia-noite do Quarteto depois de ter visto, e vai em italiano para tinir mais suavemente na minha hegeliana bela alma, "Brutti, Sporchi e Cattivi". Mas fará sentido tamanho horror perante o moderno Petit Tour dos pobrezinhos e remediados em viagem de ida e volta da Ryanair?

Juro, mas juro mesmo, que percebo a chatice de não poder chegar a Itália em operático registo viscontiano para depois, como Aschenbach ou Brodsky, flanar melancolicamente pelos canais de Veneza, com o rosto febrilmente afagado pelo siroco; vaguear literariamente pelos cafés de Turim, com o fantasma de Nietzsche por perto e apenas o sussurro das folhas de um jornal ou de quem conversa baixinho perante dois macchiati; andar pelas ruas de Milão apenas rodeado de elegantes descendentes das condessas Serpieri ou dos Falconeri de outrora, com os seus actuais e impecáveis vestidos e fatos italianos comprados no Quadrilátero; já em Florença, abrir a janela do quarto sobre a cidade para depois entrar em Santa Croce e, como Stendhal, ouvir as extáticas palpitações do seu coração; ouvir o silêncio da Piazza del Campo, em Siena, ou os sagrados murmúrios dos mosaicos de Ravena, como teria ouvido Montaigne; entretanto, ter nos braços o mesmo Coliseu que outrora se despiu perante Goethe como uma bela e casta mulher que só se despe para os íntimos e apaixonados olhos do seu amante ou ter a Fontana di Trevi só para si e uma valquíria loira, embora com estridência mais meridional do que wagneriana, mais próxima até das gordas turistas que Mega Ferreira não suporta, do que da profunda e complexa mitologia escandinava; enfim, vaguear sossegadinho  pelas esculturas do museu em Nápoles ou em Pompeia, como a Bergman, sem ter que esperar de 5 em 5 minutos que acabem de fazer as selfies para o Instagram ou Facebook.

E não pode, por causa da poluição visual originada por tanta mulher gorda, homem barrigudo e criança malcriada. Mas isto coloca um problema. Se o povo não sai de casa para ficar a ver telenovelas, reality shows, debates desportivos ou passar horas no Facebook, é estúpido e ignorante. Se já sai mas para viajar até ao café para beber umas minis e comer tremoços enquanto discute A Bola, ignorante e estúpido é. Apesar de a estupidez e a ignorância serem qualidades que não dignificam a população de um país que teve poetas como Sá de Miranda e Camões, tomo a liberdade de presumir que, para Mega Ferreira, será bendita e piedosa estupidez e ignorância, por ser daquela que não perturba os seus arrebatamentos estéticos e intelectuais sempre que pousa os pés em Itália. A chatice é quando o povo evolui social e economicamente e, com dinheiro no bolso para andar de avião, resolve ir todo contente para o Coliseu fazer selfies ou fotografias em frente à torre de Pisa a fingir que sustém a sua queda com um dedo, incomodando a aristocrática sensibilidade do intelectual português perante tão bela jóia do Renascimento que bem gostaria de ter apenas ninfas botticellianas a embalar-lhe a alma num bucólico fim de tarde toscano.

Não digo "aristocrática" inocentemente. Tudo aquilo que atrai Mega Ferreira em Itália tem um selo aristocrático ou burguês. Tudo o que é palácio, pintura, escultura, igreja, torre ou até os poemas de Rilke no castelo de Duíno sobre o golfo de Trieste, deve-se à riqueza dos Sforza, dos Gonzaga, dos Este, dos Medici, dos Borgia, dos Orsini, dos Strozzi, dos Pazzi, dos Montefeltro, dos Borghese ou, por último, mas mesmo nada menos importante, do papado. São eles, com o seu poder, a sua ambição, a sua vaidade e, nalguns casos, como diria o Harry Lime de O Terceiro Homem, com bastante mau feitio. Mas também com o seu gosto artístico, que fazem com que, desde há muito, Mega Ferreira vá todos os anos a Itália. Não tenho a menor dúvida de que ao passar pelas praças, pelos estátuas, pelos cafés, pelas livrarias, pelos museus, pelos palácios, pelas igrejas e seus interiores ou até pela própria paisagem italiana, Mega Ferreira consiga ver e sentir coisas que os antigos aristocratas e burgueses cultivaram e que passam completamente ao lado das gordas e dos barrigudos. Porém, não vendo e sentindo essas, verão e sentirão outras. Os filhos e netos dos pobres de outrora (incluindo chineses) que poluem a Itália de Mega Ferreira, obrigando-o a semicerrar os olhos e a impedi-lo de usufruir quase privadamente dos tesouros que esperam por si, podem não ter a mesma experiência estética e intelectual do ex-administrador do CCB, mas isso não os impede de apreciar à sua maneira a catedral de Florença ou a Piazza della Signoria. Seja como for, o que depois se faz ou deixa de fazer com esses bens fica ao critério e liberdade de cada um. Também nas bancadas de um estádio não há só lugar para quem perceba muito de futebol mas igualmente para quem só veja a cor das camisolas. Num concerto de música clássica há melómanos que podem estar horas a falar sobre o que acabaram de ouvir e quem apenas goste de ouvir sem nada saber do compositor e da sua música. Dois garotos do 9ºano que namoram nos jardins da Gulbenkian jamais verão o que lá vê um arquitecto paisagista mas nem por isso deixam de apreciar o lugar e serem lá felizes. Com a a paisagem urbana e cultural italiana sucede o mesmo, e quem é de esquerda só pode ficar feliz com o acesso do povo a bens culturais em vez de ficarem em casa a ver telenovelas, debates desportivos e no Facebook a despejar likes nas fotos de quem saiu de casa para ir a Itália fazer fotos para serem vistas por aqueles que ficam em casa a ver telenovelas, debates desportivos e no Facebook a despejar likes.

E porquê de esquerda? Não é agora o momento certo para discutir o que é ser de esquerda ou de direita. Mas uma maior equidade, conseguida à custa de uma maior redistribuição da riqueza, é uma das bandeiras que melhor definem a esquerda. O que, em termos práticos, significa melhores condições de vida para todos, permitindo que, hoje, os filhos e netos de quem viveu na pobreza e num gueto social, tenha acesso aos mesmos bens que antes eram apenas acessíveis às elites ou classes médias mais abonadas. Ora, não se pode ser de esquerda e ao mesmo tempo abominar a evolução social dos filhos e netos dos pobres de outrora, graças à qual podem usufruir dos bens exclusivos que a história acabou por democratizar, tornando-os acessíveis a todos. Por isso, sendo um homem de esquerda, e tão de esquerda que até nem entra num café frequentado por gente de direita, em vez de semicerrar os olhos para intimamente abominar a companhia de quem, décadas atrás, estava condenado a ficar em casa a ver telenovelas e programas desportivos ou fazer turismo até ao café da esquina para beber minis, Mega Ferreira deveria sentir júbilo e orgulho pelo progresso social conseguido desde o fim da II Guerra Mundial na Europa e nas últimas décadas em Portugal.

Já agora, e só para terminar, o que pensará fazer Mega Ferreira quando chega a Itália, dos milhões de gordas e barrigudos italianos, estúpidos e ignorantes, que votam em Berlusconi e, à noite, assistem a uma das mais absurdas programações televisões da Europa? Impedi-los de sair de casa para irem trabalhar, às compras, ao café, ao futebol ou dar umas voltas pelas ruas, porque poluem a bela e erudita Itália, perturbando a experiência estética e intelectual do português que gostaria de poder sempre lá aterrar em viscontiano registo operático? Talvez mandá-los para Portugal em voos charter da Ryanair, desde que não ultrapassassem o perímetro da Baixa/Chiado e outras glamorosas zonas habitacionais da capital como a Lapa ou Campo de Ourique, ou cafés frequentados por intelectuais de esquerda, para poderem elucubrar sobre as suas ideias de esquerda sem serem perturbados pelo povo. Assim juntavam-se todos e só se estragava uma casa.