17 julho, 2017

UM SUAVE VENENO


Fiquei contente com o golo do Éder, como fiquei contente, minutos depois, quando o árbitro apitou para o fim do jogo. Poderia não ter ficado. Fosse francês e teria ficado furioso. Fosse austríaco ou lituano e talvez ficasse indiferente. Mesmo sendo português, poderia ter ficado indiferente. Uma pessoa pode ser portuguesa e não sentir nada de especial pelo seu país. Vendo bem, racionalmente, até me sinto mais europeu do que português e, mais racionalmente ainda, mais ser humano do que europeu. Mas como nem tudo na vida é racional, não consigo resistir ao destino de ter nascido aqui, de falar, ler, escrever e pensar com a língua que se fala aqui, de comer o que se come aqui, de ter crescido no meio de quem aqui vive, no meio de hábitos, tradições, paisagens que só quem aqui nasce e vive pode compreender. Se tivesse nascido na Finlândia ou na Hungria, passar-se-ia comigo o que se passa com quem nasceu lá. Mas como foi aqui e não lá que nasci e cresci, e apesar de não considerar Portugal melhor ou pior do que os outros países, ou não sendo dado a erupções patrióticas, gosto de ser português e do país que faz com que goste de ser o que sou.

Fiquei pois contente com o golo do Éder, como fiquei contente, minutos depois, quando o árbitro apitou para o fim do jogo. E de me sentir algo orgulhoso por o meu país ser campeão europeu apesar de jogar um futebol medíocre. Confesso, porém, que não sinto o mesmo orgulho perante os feitos históricos dos portugueses, como não sinto qualquer vergonha ou culpa pelo que de desprezível outros portugueses fizeram em tempos. Foram eles, não fui eu. É verdade que também não fui eu quem marcou o golo, foi o Éder. Nem joguei aquele jogo, nem sequer estive lá no banco como massagista. Mas aquele jogo ocorreu no meu tempo, com pessoas que vivem no meu tempo e fazem partem da minha vida em tempo real. Claro que eles se sentirão mais orgulhosos do que eu, merecem muito mais esse orgulho do que eu. Mas eu, sendo português como eles, aqui e agora, partilhando o mesmo país, posso ir à boleia do seu orgulho. Ora, o mesmo não acontece com o que os meus antepassados fizeram, fosse de bom, fosse de mau.

Daí não conseguir dar para este peditório. Reconhecer as atrocidades do passado? Sem dúvida. Um massacre é um massacre, seja onde for e quando for. Agora, pedir desculpa, implica uma culpa e este país Portugal não tem culpa do que de errado se fez em tempos. Entre o reino de Portugal de 1500 e a república portuguesa de 2017 existe um hiato brutal. Há mais semelhança, hoje, entre um português e um africano, do que entre um português de 1500 e um português de 2017. Aqueles governantes já não existem, aqueles portugueses já não existem, como não existe aquele regime, aquela ordem de valores, aquela mentalidade, aqueles hábitos, enfim, aquele mundo. Pedir desculpa parece-me, pois, absolutamente despropositado.

O que se torna interessante compreender é a agenda política e o subconsciente político de quem permanentemente se mobiliza contra os países do mundo ocidental. Por que razão vivem permanentemente em busca de causas, de lutas, de conflitos, sempre em busca de mais uma polémica que denuncie os nossos regimes abertos, liberais e verdadeiramente democráticos, tão diferentes dos regimes com que eles sonham nos seus delírios ideológicos? Nuns casos serão ressentimentos mal resolvidos, noutros casos será sede de protagonismo, noutros casos ainda um excesso de testosterona mental que leva algumas pessoas a sentir necessidades revolucionárias. Seja. O mais irritante acaba por ser mesmo a sua obsessão em mexerem no lixo da história em vez de se concentrarem no que estes países, que tanto os revoltam, conseguiram de bom. Tão bom, que milhares de africanos, descendentes de antigos escravos trazidos para a Europa, morrem nas águas do Mediterrâneo ao tentarem viver para esses países em busca de um futuro melhor. Exigir um pedido de desculpa é muito mais do que isso: é uma necessidade de humilhar, de apontar a faca, de continuar a mantê-los reféns de um passado que já não existe a fim de poder fragilizá-los. Claro que a memória é um bem que não deve ser apagado. Mas aqui é muito mais do que isso. Trata-se de a transformar num veneno suave para poder mantê-los como alvo do seu subversivo ódio, raiva e ressentimento revolucionário. Felizmente, há homens como Barack Obama, Nelson Mandela ou Martin Luther King, cujas lutas e acções visam melhorar o seu próprio mundo, em vez de falarem, pregarem ou esbracejarem em nome de coisa nenhuma.