13 julho, 2017

O TEMPO EMBRULHADO


Há dias, deu-me para ir ver uma caixas que para ali tinha e fui dar com uns copos embrulhados em folhas de jornal, não tendo resistido a esticar algumas delas para ler notícias de há vários anos. Bem sei que a coisa mais velha do mundo é o jornal do dia anterior. Não me surpreende, pois, a inquietante estranheza  que é estar a ler notícias de há vários anos como se acabasse de comprar o jornal num quiosque. O que verdadeiramente me surpreendeu não foi tanto aquele cemitério de notícias frescas e de "última hora" mas as próprias folhas amarfanhadas, amachucadas, amarrotadas, esta estranha e disforme expressão física do tempo factual. Como se aquelas folhas se tornassem numa extensão física dos próprios conteúdos noticiosos, outrora lisos e transparentemente lúcidos.

A nossa consciência do tempo, ou melhor, a nossa consciência dos factos no tempo, também pode ser uma consciência lisa como as folhas de um jornal acabado de comprar, ou, pelo contrário, uma consciência amarfanhada, como a folha de um jornal que embrulha há anos o copo. Ir em busca do tempo perdido é como voltar a alisar uma folha de jornal cujas notícias se perdem num caos informe e ilegível com o objectivo de proteger copos. Acontece simplesmente o seguinte: enquanto o copo está protegido pelas amarfanhadas notícias de um velho jornal, não se pode beber por ele. E um copo protegido é um copo inútil. Quando, finalmente, o copo é desembrulhado para poder ser usado e as folhas de jornal podem ser de novo alisadas, regressa então à sua fragilidade de sempre.