05 julho, 2017

O MELHOR CEGO


Há dias, o Libération lembrava aquela célebre frase na qual se dizia alegremente que é preferível estar errado com Sartre do que ter razão com Aron. A frase pode sugerir um devaneio pós-adolescente espalhado pelos Boulevards de Saint Germain como um bom perfume francês, um capricho revolucionário para épater le bourgeois, embora em contradição com a ideia, certamente revolucionária, de que só a verdade é revolucionária. Se bem que também se possa achar que a ideia de que só a verdade é revolucionária também não passe de um capricho revolucionário para épater le bourgeois, o que pode levar à conclusão de que tudo pode servir desde que seja para épater le bourgeois.

A frase, porém, deve ser levada mais a sério. Podemos generalizá-la, trocando o binómio Sartre-Aron, esse velho Benfica-Porto da política francesa mais intelectualizada, por qualquer outro, seja qual for a matéria, da política à religião, passando pelo desporto ou as relações pessoais, onde uma das partes seja considerada verdadeira e a outra falsa. Nietzsche, na Gaia Ciência, lembra que a consciência é a evolução última e mais tardia da vida orgânica, sendo por isso frágil e incompleta, deixando a humanidade vulnerável com os seus falsos juízos, os seus delírios mesmo quando se está acordado. Enfim, a verdade é o que menos importa. Importa sim, acreditar naquilo em que gostamos de acreditar e defender aquilo em que gostamos de acreditar, evitando o mais possível parar um bocadinho para pensar se faz mesmo sentido acreditar no que consideramos verdadeiro, ainda que a poderosa realidade entre pelos olhos de quem a quer ver  O pior cego não é aquele que não quer ver. Esse é mesmo de todos o melhor cego por conseguir precisamente o que mais deseja: não ver. E deixando assim a sua consciência tranquila, bem encostadinha à almofada das ilusões para um sono bem repousado.