16 julho, 2017

O INQUÉRITO


É normal estar engripado? Depende. Ao contrário de conceitos como os de átomo, massa muscular, pressão atmosférica ou raiz quadrada, o conceito de normalidade é equívoco. Por isso respondo: sim e não. Não, porque estar engripado não é o nosso estado natural mas um estado de excepção. Não é suposto viver com gripe, apenas ocasionalmente. Mas também é normal pois acontece com frequência. Toda a gente já teve gripe e quando estamos engripados ou vemos alguém engripado, não vemos nisso qualquer anormalidade. Posto isto, o que pensar sobre um médico considerar a homossexualidade uma anomalia? Será a homossexualidade uma anomalia? E poderá um médico, enquanto técnico de saúde, considerar a homossexualidade uma anomalia? Primeira pergunta: sim e não. Segunda pergunta: sim.

Sim, a homossexualidade é uma anomalia na medida em que há uma lógica no facto de haver em toda a natureza sexuada (seres humanos, animais e plantas) dois elementos, o masculino e o feminino, que se atraem mutuamente. A natureza sabe bem o que faz e não é por acaso que existem dois sexos. Fosse a homossexualidade um estado preponderante da natureza e seria catastrófico em termos evolutivos. Neste sentido, sim, a homossexualidade é, e será sempre, uma anomalia, e ainda bem para a natureza em geral, e humanidade em particular, constituir um estado de excepção. Até podemos considerar a bissexualidade menos anómala e mais biologicamente racional do que a própria homossexualidade, uma vez que a atracção por pessoas do mesmo sexo não inibe trocas sexuais com pessoas do sexo oposto, assegurando assim a sobrevivência da espécie, o que não acontece quando homens apenas têm relações sexuais com homens e mulheres com mulheres. Mas também podemos considerar a homossexualidade normal. Sempre existiram, existem e irão continuar a existir homossexuais. E num quadro estatístico que não põe em risco a sobrevivência da espécie, podendo pois a humanidade dormir descansada em relação a isso. Para além disso, um homossexual é uma pessoa normal em tudo o resto, devendo, por isso, ser visto pelo que é como pessoa e não sobre o que faz ou deixa de fazer sexualmente.

Agora, por que é admissível um médico considerar a homossexualidade uma anomalia? É admissível se se basear numa leitura naturalista, tal como referi inicialmente. Claro que o facto de se tratar de um médico católico praticante, faz com que a sua leitura técnica fique contaminada por elementos ideológicos mas o mesmo se passará com os médicos que ficarão indignados com tal leitura, considerando a homossexualidade tão natural como a heterossexualidade. A homossexualidade enquanto matéria científica ou clínica distancia-se bastante de assuntos como a diabetes, a tuberculose ou a osteoporose, limitando bastante a possibilidade de uma abordagem puramente técnica e objectiva, impermeável a infiltrações ideológicas, políticas ou religiosas. Trata-se, por isso, de uma discussão que, em virtude dos seus pressupostos filosóficos, jamais terá fim.

Eu, que não sou médico, pretendo opinar. Considero que a homossexualidade tanto pode ser considerada uma doença como não ser considerada uma doença. Depende. Para entender esta ambivalência é preciso dizer o que se entende por saúde e doença. Ainda hoje, em muitas situações, e os médicos que o digam, é difícil distingui-las. Mas vou arriscar: pode-se considerar uma pessoa doente quando uma dada alteração no organismo (ou na mente) pode levar à morte ou a constrangimentos físicos (ou mentais), que criam situações aversivas que limitam a possibilidade de fazer uma vida normal. Ora, se um homossexual aceita a sua homossexualidade, vive bem com ela e se escolhesse ser de novo homossexual se voltasse a nascer, não faz sentido considerar esta pessoa doente. Se, pelo contrário, um homossexual vive mal com a sua homossexualidade, vivendo permanentemente frustrado e em conflito consigo mesmo por sê-lo, então este homossexual apresenta sintomas de doença, que o impedem de viver normalmente a sua vida, podendo assim precisar de apoio clínico. Quer isto dizer que o mesmo médico pode, numa consulta, considerar um homossexual, saudável, e, numa consulta seguinte, considerar um outro homossexual, doente. Doença, no seu sentido mais comum, como é o caso de uma gripe, que também provoca um mal-estar, não, vamos lá não meter tudo no mesmo saco, uma aberração, uma desordem grave, como sentir atracção por crianças, animais ou sentir prazer em andar a abrir gabardinas em lugares públicos.

Não concordo, portanto, com a posição  redutora de Gentil Martins sobre a homossexualidade. Estou, por isso, também à vontade para também considerar lamentável, mais uma vez, as reacções de histeria e fanatismo, igualmente impregnadas de ideologia, de quem se julga único detentor da verdade e a poder marcar a sua posição, silenciando todos aqueles que se opõem. O médico Gentil Martins tem direito à sua posição filosófica e outros o direito de discordar por motivos igualmente filosóficos. Inquérito? Passarem os perseguidos a perseguidores é um clássico da história e aí está mais uma vez a realidade para o confirmar.