04 julho, 2017

O CORVO


Mal pude esperar quando soube que era possível conhecer a capa da Playboy do mês em que eu nasci. Mal pude esperar mas, em vez de infantilmente surdo aos avisos da experiência e da idade, bem devia ter esperado. No lugar da esperada loira oxigenada com um ubérrimo busto em redonda dose dupla e sorriso lascivo enquanto me pisca o olho, a redonda dose dupla vou encontrá-la nos dedos de uma mulher, com ar espantado, com o objectivo de mandar o ceguinho usar óculos como fazem os automobilistas nos carros quando se exaltam com as aselhices dos outros. Isto, claro, sobre um fundo completamente negro, como seria de esperar numa revista como a Playboy, dada a assuntos fúnebres e melancólicos. E como se isso não bastasse, a descolorida cereja em cima do bolo amargo: um artigo sobre Edgar Allan Poe que, como toda a gente sabe, também é o tipo de coisa que mais avidamente esperam os meditabundos leitores da Playboy. Bate tudo certo, as constelações astrológicas do destino não brincam em serviço.