20 julho, 2017

O CARTEIRO DE IMMANUEL KANT


É impossível apresentar Kant a alguém sem referir os seus imprescindíveis passeios depois de almoço, fossem quais fossem as condições meteorológicas, sempre o mesmo percurso, passando sempre às mesmas horas pelos mesmo sítios. Diz-se que os habitantes de Königsberg poderiam saber as horas pelo momento em que ele estaria a passar. Diz-se também que só uma vez tal não aconteceu. Foi quando, ansioso por saber notícias que vinham de França, onde houvera uma revolução, modificou o seu percurso para ir ao encontro do carteiro que lhe trazia as novidades.

Vou agora imaginar Kant em Königsberg (actual Kaliningrado), lá no Báltico, à espera, ansioso, de novidades de França. Novidades? Ansioso? Como novidades, num tempo em que não havia televisão, rádio, internet, telégrafo, fax, telefone, carro, comboio ou avião? Vejo-o a aproximar-se do carteiro, conversam um pouco (ele era um excelente conversador), afasta-se para ler, ficando então a par do que vinha desse longínquo país. Imaginar isto obriga-me a pensar na distância entre o que ele fica a saber e no que, entretanto, já aconteceu depois disso sem que ele possa disso dar conta, porque a França é a França e o Báltico é o Báltico.

Dessa vazia e escura distância temporal entre o que se sabe que está a acontecer e o que está a acontecer mas não se sabe, não nos podemos nós hoje queixar. Seja em que parte do mundo for, sabemos em directo tudo ou quase tudo o que está a acontecer. E com actualizações hora a hora. E com reportagens de correspondentes ou enviados especiais de vários canais, falando de noite quando para nós é de dia ou vice-versa. E com dezenas de fotografias, entretanto espalhadas pelos jornais e pela rede, dos mais ínfimos e supérfluos pormenores, como se nós próprios andássemos por lá a vasculhar tudo o que há, tanto para ser visto como para não ser visto mas que acabamos por não conseguir deixar de ver. E com entrevistas a quem lá vive. E com comentários especializados nas televisões, explicando os mínimos detalhes até aos limites da exaustão e do mais absoluto tédio. Podemos, pois, considerar que dominamos bem os acontecimentos históricos, graças ao poder da informação, da comunicação, da tecnologia.

Sim, até certo ponto é verdade. Mas é verdade quando se trata da onda que bate na areia e que molha os nossos pés. Vemos a onda, começando a formar-se, lá longe, à superfície, a crescer, a aproximar-se e, finalmente, a estatelar-se na areia até chegar aos nossos pés. Porém, o que vemos é apenas a parte final, a consequência, não as várias conjugações, imperceptíveis a olho nu, tanto no fundo do mar como ao nível dos campos gravitacionais, que estão na origem da onda que se desfaz, já exangue, nos nossos pés. Diz-se, e não longe da verdade, que a Filosofia política do século XIX é uma reflexão e uma discussão à volta do que foi gerado pela Revolução Francesa. Diz-se, e também não longe da verdade, que a Filosofia Política do século XX é uma reflexão e discussão à volta do que foi gerado pelo Comunismo. Kant, um homem que também escreveu importantes textos políticos nos finais do século XVIII, não podia adivinhar, ao receber as notícias pelo carteiro, o que iria ser a Filosofia Política do século seguinte. Nós, aqui e agora, com tanta informação e comunicação, hora a hora actualizada, ainda só estamos em 2017, com a onda do século ainda a formar-se à superfície da água, estamos muito longe de saber o que virá a ser a Filosofia Política do século XXI ou do século XXII. Vemos, aqui e agora, as ondas a bater nos nossos pés, mas estas ainda são as ondas do passado que, exaustas, já só nos lambem os pés antes de desaparecerem de vez na areia. Mas não sabemos que tipos de onda virão a molhar os pés de quem ainda tem tanto para viver neste século, pois, e apesar de neste preciso momento, hora a hora, dia a dia, mês a mês, ano a ano, já estar a acontecer, sabe-se lá onde e como, o que acontece agora nas profundezas do mar e dos campos gravitacionais da história, é imperceptível a olho nu. No que a isso diz respeito, o pobre e esforçado carteiro de Kant continua a ser ainda o nosso carteiro.