25 julho, 2017

MACRON


Para explicar o conceito de "Razão de Estado" deve-se começar pelo óbvio: a amorosa aproximação do católico Richelieu a países protestantes, só para poder tramar os também católicos espanhóis e austríacos mas rivais directos no domínio político da Europa. Estamos numa época em que o nome da religião tem um peso tremendo, mas época também de absolutismos e, por isso, o futuro Luís XIV precisa de um mentor à altura (política, já que no campeonato dos centímetros nem com os seus saltos altos subiria de divisão). Precisava e teve-o: o cardeal Mazarin, desempenhando na perfeição as suas funções para tornar a França cada vez maior e central numa Europa pulverizada.

Os meus limitados conhecimentos de História não me permitem dizer se foi com Luís XIV e Mazarin que se iniciou verdadeiramente uma esteticização do poder. Se calhar até nem foi. Mas foi com eles que atingiu um ponto culminante. Luís XIV, no palco, a representar, Mazarin, como argumentista nos bastidores, formam uma dupla imparável para dar ao mundo a imagem de uma França poderosa. Os países podem ter os seus números, as suas taxas, os seus gráficos, os seus exércitos. Mas sem uma encenação do seu valor, o seu poder e força na feroz luta dos equilíbrios internacionais ou na sua venda para consumo interno, ficarão diminuídos. Nisto, os países são como os animais: quanto mais alto o leão rugir, quanto mais fortemente o gorila bater com as mãos no peito, ou quanto mais se esticar o gato a assanhar-se, maior será o benefício no campeonato da estratégia.

Daí o poder esmagador desta fotografia. Posso estar a ser exagerado e não ter a noção das diferenças. Mas eu olho para esta fotografia e só me vem à cabeça a coroação de Napoleão tal como foi grandiosamente "fotografada" pelos pincéis de Jacques-Louis David. Não pelo ar sério de toda aquela gente em ambas as situações, até porque não há motivos para rir. Penso no absoluto silêncio que em ambas se ouve, na concentração de toda a atenção num único ponto do universo, na total suspensão do mundo exterior, completamente anulado pela ascensão do novo líder que se torna no seu centro. No caso de Macron, acentuado ainda pelo subtil contrapicado da fotografia que nos faz olhar para ele com a mesma perspectiva angular com que Josefina olhava o imperador, no nosso caso para sermos coroados com o privilégio da sua presidência. Ambas as imagens me fazem lembrar aqueles filmes em que há uma grande confusão de sensações, movimentos, barulhos, aquelas músicas nervosas que acompanham agitadas cenas de acção, até que, de repente, plof!, há uma pessoa que mergulha, havendo nesse momento um absoluto silêncio aquático que tudo apagou e que nós partilhamos com o actor submerso. É esse o silêncio que ouvimos em ambos perante a hierofania política que o exige. Macron terá sempre aquele ar de vizinho do lado, de jovem liceal que a idade não tem tirado e de quem vai até um restaurante comemorar uma vitória eleitoral no meio de parisienses anónimos. Mas como também ninguém é herói para o seu criado de quarto, Macron terá também que despir a roupa de andar por casa para vestir a sua pose de Estado.

Nós vemos o quadro de David e percebemos a imperial França de Napoleão. Nós vemos a fotografia de Macron e talvez percebamos aonde quer Macron levar a sua França. Não certamente até às Pirâmides do Egipto, nem enterrar-se nas neves russas, mas pelo menos às conferências de líderes com estatuto de grande potência. Não é que a teatrocracia ou a encenação do poder faça ou desfaça países. Não é por os Estados Unidos terem um presidente parvo que deixam de ser uma grande potência ou por o Zimbabwe ter um presidente com tiques de grandeza que o país se torna numa grande potência. Mas sem dúvida que o tamanho da encenação do poder importa, contribuindo, tal como o rugido do leão, para marcar território. Engraçado como o apelido do presidente francês acaba por ser realçado nesta fotografia, não sendo ele grande em altura, como grandes não eram, sendo até "micros", Luís XIV e Napoleão. Mas se ambos ajudaram a parecer grandes as duas Franças que representaram nos respectivos palcos, com certeza que também é fazer parecer grande o que deseja Macron para a sua França, tendo a Alemanha mesmo ao lado e a Inglaterra em processo de fuga. E só penso mesmo no apelido engraçado com que nos brindou, nada de fazer piadas parvas com o seu nome próprio. Já basta o nome do seu partido.