09 julho, 2017

ENGENHEIROS DE ALMAS CEM ANOS DEPOIS

Isaak Izrailevich Brodsky 

No Público de ontem, em registo de "estado de alma", a respeito da manifestação, em Lisboa, de apoio ao grande timoneiro venezuelano, o cronista João Miguel Tavares mostrava a sua perplexidade face ao contraste entre as coisas que um comunista diz para dar um ar de modernidade e de resignação à "democracia burguesa" e, depois, as suas acções, fugidas para a verdade como tantas vezes a boca. É natural. O cronista, sendo um jovem, terá mais dificuldade em perceber a cabeça de um bolchevique. Sendo eu mais velho, já poucas coisas me surpreendem, incluindo a labiríntica cabeça de um bolchevique.

Atenção, eu disse poucas. Quer isto dizer que ainda há espaço para alguns coelhos na cartola das surpresas. Superlativo exemplo do que estou a dizer é a lista de membros do Comité Central do PCP que pode ser aqui consultada. Vejo o primeiro da lista: Adelino Nunes, operário, 53 anos de idade. Tudo normal com a sua identificação. Porém, logo no terceiro, uma surpresa: Alexandre Araújo, intelectual, 44 anos de idade. Ainda pensei que ser apresentado como intelectual fosse um engano, uma gralha, sei lá, uma confusão qualquer. Só que, logo umas filas mais abaixo, aparece Filipe Vintém, igualmente intelectual. E mais abaixo, Jaime Toga. Como intelectuais serão João Frazão, José Ângelo Alves, Manuel Gouveia, Maria Manuela Pinto Ângelo e Miguel Soares. Não é pois engano, gralha, uma confusão qualquer. São mesmo intelectuais, i-n-t-e-l-e-c-t-u-a-i-s, assim mesmo, preto no branco, dito devagarinho para acreditar no que estou a ler. Agora que já acreditei, preciso urgentemente de perceber o que raio possa ser um intelectual. Bem, eu sei o que é um intelectual ou até o que é ter ar de intelectual, por exemplo, o João Pires, que por acaso até surge com o estatuto, aliás, mais que suspeito, de licenciado em gestão de empresas, tem ar de intelectual. Pronto, não é isso, o que preciso mesmo de saber é o que é ser intelectual enquanto elemento básico da identidade com que uma pessoa se apresenta à humanidade.

Terá que ver com a clássica oposição entre "trabalho intelectual" e "trabalho manual", por exemplo, a que distingue numa fábrica, o trabalho do operário e o do contabilista ou do engenheiro? Ora, se nesta lista aparecem Agostinho Lopes e Vladimiro Vale, que são engenheiros, Carlos Carvalhas e Ilda Figueiredo e Ricardo Oliveira, economistas, o já referido João Pires, José Maria Pós-de-Mina e Vasco Cardoso, gestores de empresas, João Torres, empregado de escritório, Luís Fernandes, técnico de telecomunicações, Paula Santos, que é licenciada em Química Tecnológica, e Teresa Chaveiro, técnica de Informática, não faria sentido os nossos intelectuais aparecerem como grupo específico. Faria sentido, sim, serem também apresentados pela sua profissão, sei lá, empregados de escritório, bancários, agentes de seguros, engenheiros, contabilistas ou gestores. Ou então, para não cometer injustas desigualdades, considerar intelectuais todos os outros que nomeei. Ficando assim como está, leva-me a ter de abandonar a pista que separa trabalho manual e intelectual.

"Intelectual" pode também ser usado como adjectivo. Diz-se por exemplo, e bem, que Eduardo Prado Coelho e José Saramago eram intelectuais, como intelectuais serão Eduardo Lourenço e George Steiner, ou, apesar de já não estar mentalmente entre nós, Agustina. Toda a gente pensa mas há pessoas que pensam mais e melhor do que outras (mesmo podendo-se não concordar com o que escrevem), toda a gente sabe escrever mas há pessoas que escrevem coisas que nem toda a gente é capaz de escrever. E apesar de hoje qualquer pessoa (eu incluído) poder manifestar opinião, seja em blogues, nas redes sociais, ou nessas pestíferas lixeiras que são as caixas de comentários dos jornais, reconhecemos que só algumas o fazem em virtude de uma competência que nem todas possuem. Ora, estarão os intelectuais do Comité Central aqui nessa condição? Não, não faz sentido. Neste comité há pessoas da área do ensino, incluindo universitário, Sociologia, Teologia, Psicologia, Ciências da Comunicação, Jornalismo, Biologia, História, Direito, Artes Plásticas, e que não são apresentadas como intelectuais. Atenção, não têm de ser intelectuais só porque são dessas áreas. Eu tive professores na universidade cuja vida inteligente estava ao nível de um papagaio, há psicólogos e sociólogos que abrem a boca e dão vontade de chorar, jornalistas que deveriam regressar à escola primária, enfim, obras de arte que, numa prova cega, ficaríamos sem saber se foram pintadas por um ser humano ou se por um chimpanzé lobotomizado. Neste caso, os membros do Comité que foram eleitos intelectuais poderão tê-lo sido pelo reconhecimento de uma actividade efectivamente intelectual. Mas isso não faz sentido. Se assim fosse, estar-se-ia a menosprezar os outros, atirando-se-lhes implicitamente à cara não terem qualidade suficiente para serem intelectuais. Depois, se os eleitos são mesmo, mas mesmo, intelectuais, onde estão as actividades em que se destacam e que permitem esse reconhecimento público? Admito que seja ignorância minha mas nunca ouvi falar de qualquer um deles, tendo ainda que presumir que não serão assim considerados só porque quando acordam de manhã estão meia-hora a olhar para o tecto em profunda reflexão. Mais, não esqueçamos a presença neste comité de Rúben de Carvalho, um homem ligado à cultura, que escreve, que pensa, ou seja, um verdadeiro intelectual, mas que é apresentado como jornalista. Ou a presença de um director literário que, seja lá o que isso for e onde for, não pode deixar de ter uma componente intelectual. Tiro na água mais uma vez e porta-aviões nem vê-lo.

Quando o desespero é grande, buscam-se todas as possibilidades. No meu caso, tratando-se de compreender a cabeça de um bolchevique, resta a possibilidade de irmos até às raízes do bolchevismo. Os bolcheviques demonstraram sempre um grande apreço pelos intelectuais e convém não esquecer que na Rússia do século XIX vamos encontrar um grande grupo de intelectuais como Belinsky, Alexander Herzen ou Chernyshevsky, politicamente comprometidos e com grande vontade de mudar o mundo. É verdade que já depois da revolução muitos foram assassinados, enviados para trabalhos forçados na Sibéria, exilados ou fortemente vigiados, como são os casos de Boris Pasternak e Anna Akhmatova que sofreram as passinhas, não do Algarve mas de Moscovo. Só que esses eram maus e desprezíveis intelectuais, isto é, os que não alinhavam com os messiânicos desígnios do Partido. Já os outros, não: mimados, apaparicados, louvados e colocados num altar. O que faz todo o sentido. O marxismo-leninismo apresentou-se ao mundo como um sistema científica e filosoficamente consolidado, não sendo as revoluções socialistas e comunistas uma manifestação espontânea e arbitrária de massas populares ou um mero e irresponsável devaneio de meia dúzia de românticos e utopistas iluminados. É uma construção que precisa dos seus engenheiros, dos seus inspiradores e dos seus intérpretes que irão legitimar e confirmar todo o processo pelas científicas leis da história e por uma imaculada racionalidade filosófica. Os intelectuais, e o próprio Lenine foi um intelectual que não se limitou a escrever textos de estratégia política mas textos de filosofia pura e dura como é o caso de Materialismo e Empirocriticismo, foram assim transformados, como troféu, numa espécie de clero que conferia consciência moral, política e científica a todo o processo ou, se quisermos, advogados de defesa com o objectivo de explicar, com bons argumentos bebidos em Marx e Engels, a lógica do processo. E quem diz cientistas ou filósofos, diz também escritores, pintores, arquitectos, cineastas ou músicos que enalteciam pela arte toda a majestade do processo revolucionário, sendo, aliás, bastante interessante, acompanhar a relação entre o poder e as flutuações estéticas e programáticas por que passaram alguns desses artistas. O compositor Dimitri Chostakovitch é disso um bom exemplo, entre muitos outros artistas que se viram e desejaram para não irem parar com a cabeça ao cepo.

Não sei se virá daí a tradicional associação do intelectual à esquerda, dando origem à clássica figura do "intelectual de esquerda", o que não deixa de ser quase redundante, uma vez que ser intelectual é ser de esquerda, alguém que emerge criticamente face a uma sociedade filistina e burguesa, baseada em valores errados, inimigos da liberdade, da justiça, da igualdade. Seja como for, associar esta identidade de esquerda do intelectual à velha tradição do intelectual como vanguarda, o farol que ajuda o navio do progresso a caminhar para bom porto, pode ajudar a explicar que, em Portugal, o Partido Comunista seja aquele que sempre deu mais importância aos seus intelectuais, possuindo mesmo, formalmente, na sua estrutura, um "Sector Intelectual", como de resto não se vê em nenhum outro partido. O que faz todo o sentido. O partido não se limita a lutar mas pensa enquanto luta, ou luta porque pensa, apresentando o intelectual uma dimensão reflexiva e objectiva que o coloca num patamar acima das meras estratégias políticas que apenas visam a manutenção de "ordem burguesa e neo-liberal", tornando-se assim numa espécie, como alguém lhe chamou, de "funcionário da humanidade", ao serviço dos mais elevados interesses daquela, contra a lógica dos interesses de uma minoria de exploradores.

Pronto, isto não esclarece nem de longe nem de perto o mistério dos "Intelectuais do Comité Central". Continuo a não fazer ideia por que são aqueles e não outros. Mas percebo esta necessidade de apresentar intelectuais com a mesma naturalidade com que se apresentam operários, engenheiros ou enfermeiros. Trata-se de um partido que não tem apenas pessoas que são engenheiros e depois pensam, que são agentes culturais e depois pensam, que são sociólogos e por acaso acabam também depois por pensar. Não, tem no seu comité pessoa cujo trabalho é mesmo pensar, que pensam-pensam, que vivem para pensar, que vieram ao mundo para pensar. E quando um partido tem assim no seu comité central tanta gente que vive para pensar, isso significa que, como há precisamente cem anos, só pode mesmo estar no bom caminho.