03 julho, 2017

CORTINAS MENTAIS



Eu não ligo nada a carros, apenas umas estruturas de lata com pneus que servem para me deslocar quando necessário. Porém, há dias, ao ler um conto de Cortázar, lembrei-me de que nem sempre foi assim. O conto chama-se A Auto-Estrada do Sul e toda a acção decorre durante um brutal e muito prolongado engarrafamento numa auto-estrada dos arredores de Paris. O conto tem pano para mangas mas não é das mangas que me vou ocupar. Sendo de 1966, os carros, que surgem com uma força metonímica enquanto extensão dos seus ocupantes, são os que existiam em 1966, quando eu tinha cinco anos e um dos meus passatempos preferidos era estar no terraço a vê-los passar. Como na altura eu não gostava de comer (como era possível?!) uma das estratégias maternas era mesmo levar-me para o terraço para me distrair com os carros enquanto ia enfiando colheradas e garfadas pelas minhas goelas abaixo.

Não pude deixar de pensar nisto ao surgirem no conto referências a Taunus, Anglias, Simcas, Cortinas, Peugeot 404, Dauphines, os carros que passavam na minha rua e que regressaram à minha memória como fantasmas molhados em chá. Ora, é impressionante o impacto perceptivo desses carros nos olhos de hoje, tão estranhos como se nunca tivessem existido. Porém, o impacto perceptivo dos carros naquele tempo era precisamente o mesmo que têm hoje um Audi 4, um Fiat Punto, um Renault Clio ou um Opel Corsa. Ver um Cortina em 1966 era ver "o carro", ver um Audi 4, hoje, é ver "o carro". Ou seja, o carro que eu via do terraço em 1966 era precisamente o mesmo carro que uma criança vê hoje do seu. Todavia, se quisermos voltar a ver um Cortina como vemos hoje um Audi 4 já não somos capazes, como não somos capazes de imaginar as actuais ruas de Torres Novas povoadas de Cortinas, Anglias, Taunus e Simcas. Confesso que não consigo deixar de me impressionar com esta mudança radical no modo de olharmos para as coisas, com o processo que faz com o que seja normal se transforme numa objecto completamente estranho, exótico, completamente fora dos nossos quadros mentais e perceptivos.

Mais inquietante se torna quando passamos dos carros para as ideias que já tivemos e que, também com os anos, foram substituídas por outras. Ideias que víamos tão normais, tão naturais como as ideias que temos hoje. Ideias que, tal como os Cortinas, os Anglias, os Simcas, estes vistos pelos olhos da cara, eram vistas pelos "olhos da alma" como "as ideias". Há porém, uma grande diferença: enquanto a distância que separa dos nossos olhos os carros antigos e os carros actuais compromete apenas a percepção visual, as ideias são muito mais do que simples percepções das coisas. São a matéria de que são feitos os nossos pensamentos sobre o que é verdadeiro ou falso, justo ou injusto, moralmente correcto ou incorrecto, sobre os modelo de sociedade que consideramos mais adequados ou inadequados. A coisa torna-se verdadeiramente assustadora quando olhamos para ideias que tiveram há 40 anos como, com os olhos, para um Cortina conduzido nessa altura. Acontece que os carros mudam porque apenas mudam os padrões estéticos e técnicos. Tudo normal, os carros não são verdadeiros nem falsos, justos ou injustos, moralmente correctos ou incorrectos, apenas carros do mesmo modo que há árvores, planetas ou cidades. Normal não deveria ser transformar uma ideia que considerámos "a ideia", numa versão mental do que são um Anglia ou Cortinas para os nossos olhos actuais. Podemos dizer que é a evolução e até é bom que assim seja. Como diria o famoso Barão de Itararé, não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar. Mas também quem nos garante que as ideias nas quais hoje acreditamos não serão vistas no futuro como irão ser os actuais Audi 4, Puntos ou Corsas, isto é, como são hoje vistos os Anglias ou Cortinas de outrora? Daí que com as nossas ideias mereça mais a pena tentar perceber à partida o que existe de errado nelas do que andarmos obcecados em mostrarmos que temos razão, cobrindo a verdade com o véu dos nossos preconceitos.