18 julho, 2017

A PASSADEIRA


Como ando quase sempre a pé, a minha relação com as passadeiras é mais como peão do que como automobilista. Quando um carro pára para eu atravessar, embora saiba que é obrigado a fazê-lo, tenho o hábito de agradecer, levantando ligeiramente o braço. Claro que isto só faz sentido numa terra pequena como a minha, onde em ruas estreitas e com pouco movimento, acontece com frequência um frente-a-frente entre um só carro e uma pessoa a atravessar. Também, enquanto automobilista, gosto que a pessoa que atravessa a passadeira me agradeça e fico algo incomodado quando atravessam tão indiferentes como se eu lá não estivesse. Não é que leve a mal, as pessoas não têm a obrigação de se sentirem gratas por uma coisa que a lei me obriga a fazer. Levo a mal, sim, quando prendo uma porta para deixar passar alguém que depois não me agradece, tratando-se, neste caso, da mais pura grosseria e má educação. Não, é apenas de um certo desconforto pela minha invisibilidade quando o peão bem sabe que a minha paragem forçada foi condição necessária para poder atravessar. Pronto, também não precisa de agradecer como um senhor há dias se preparava para atravessar. Ao ver que vinham dois carros, o meu e outro em sentido contrário, mandou, com gestos bastante expressivos, os carros continuarem. Só que tanto eu como o outro condutor parámos mesmo e o senhor lá atravessou a passadeira mas parecendo um daqueles maestros exuberantes que, ao agradecerem, baixam freneticamente a cabeça quase até à cintura, virando-se para a direita e para a esquerda com enorme entusiasmo. Confesso que me senti desconfortável com tamanha gratidão.

A minha questão agora é a seguinte: porquê esta minha apologia do agradecimento face a um comportamento obrigatório por lei? Para melhor compreender o que está em jogo, vou associar esta situação a duas outras. Numa estrada, é obrigatório por lei prestarmos assistência a pessoas vítimas de acidentes. Mas se eu tiver um acidente e for socorrido por uma pessoa que parou o carro, claro que lhe irei agradecer e se não o fizer, darei uma terrível imagem de ingratidão. Quando, numa loja, pago uma coisa que custou 10 euros com uma nota de 20 o empregado é obrigado a dar-me o troco. Ainda assim, agradeço, e creio que é isso que faz qualquer pessoa educada. Mas porquê? Para explicar, vou dar uma volta ao bilhar grande só para referir um livro chamado "The Roads to Modernity - The British, French and American Enlightements", de uma senhora chamada Gertrude Himmelfarb. Entre outras coisas, explica ela que a essência do Iluminismo francês é a "razão", já no Iluminismo inglês vamos encontrar tanto o "sentimento moral" como as "virtudes sociais" ou "afecções sociais", nas quais podemos encontrar, entre outras, um "fellow-feeling" que não sei bem como traduzir, pois qualquer tradução me soa mal, incluindo "companheirismo" ou "solidariedade", considerando esta última, aliás, horrível e até já roçar o pindérico ou pior ainda, o mais insuportável kitsch. Quer dizer, mais do que ser racionais que funcionam com base em imperativos racionais que podem ser postulados cientificamente, tornando o ser humano uma máquina perfeita cujas leis são apenas uma parte das mais gerais leis da natureza estudadas pelos cientistas (explica a autora que um cientista como Newton, uma referência suprema para o povo inglês, tendo mesmo direito a funeral de Estado, teve, de um ponto de vista moral, grande impacto na França "philosophique" do século XVIII, o que não aconteceu no seu país, onde separam o que é propriamente científico e racional do que é especificamente humano), devemos entender as disposições morais e sociais dos seres humanos a partir do sentimento, do afecto, de uma natural e espontânea simpatia, que explicam o impulso filantrópico da maioria das pessoas como se viu recentemente em Portugal com o incêndio de Pedrógão Grande.

Agradecer um troco ao balcão ou a paragem de um carro na passadeira, não é propriamente um sentimento moral como a compaixão ou a benevolência. Será antes uma virtude cívica como a "fellow-feeling" que torna a outra pessoa não um simples objecto reduzido à condição de cumprir uma obrigação mas alguém que cumpre uma obrigação numa relação comigo que as circunstâncias tornaram pessoal. Eu não agradeço à minha varinha mágica ou à minha liquidificadora desempenharem com competência as suas funções. Ora, se eu não sinto a obrigação de agradecer o troco ou a paragem do carro na passadeira, estou a reduzir aquelas pessoas à simples condição de máquinas que se limitam a cumprir uma função a que são obrigadas por um conjunto de regras morais ou jurídicas. Agradeço, sim, como acto de "re-conhecimento", revelando ter a consciência de que, "ali e agora" é aquela pessoa especificamente, aquela pessoa na sua individualidade, que está a fazer aquilo que é suposto fazer. Não seria necessário mas também uma das coisas que mais distinguem os seres humanos é a "elevação do supérfluo". A polidez é um bom exemplo desta virtude social ou cívica e, tal como na passadeira ou na loja, é ela que me faz gostar de ouvir um aluno dizer "obrigado" quando lhe entrego o enunciado do teste que sou obrigado a entregar-lhe, ou presumo que o aluno gosta de ouvir quando sou eu a dizê-lo, quando me entrega o teste que ele é obrigado a entregar-me para eu poder corrigi-lo. Nesse momento, somos muito mais do que professor e aluno como entidades abstractas que cumprem funções técnicas e objectivas. Somos duas pessoas, dois indivíduos, duas consciências, que se reconhecem como tal e que gostam de se reconhecer como tal. Tal como na passadeira, também sermos muito mais do que um automobilista e um peão.