21 julho, 2017

A ESTÁTUA


Já lá vão uns bons anos mas ninguém esquece a destruição assassina das estátuas de Buda no Afeganistão. Apesar do choque, não surpreendeu, vindo daqueles andrajosos talibãs que, apesar do requintado estatuto de "Estudantes de Teologia" ainda hoje vemos como gente ignorante, primitiva, fanática, insensível, com lata para se divertirem a destruir património riquíssimo. Mas não deixa de ser desafiante comparar esse infantil e irracional desprezo perante as estátuas, com a pose solene, séria, adulta, destes homens perante igualmente uma estátua, neste caso de Napoleão, acabada de derrubar na Place Vêndome, no conturbado ano de 1871. Temos assim destruição de estátuas nos dois lados: uns porque as desprezam, outros porque as respeitam apesar de as deitarem abaixo, ou antes, deitam-nas abaixo precisamente porque as respeitam.

Mas não tinha de ser assim. Lembremos a dramática "Querela das Imagens", ainda nos primeiros tempos do cristianismo, por causa da veneração de imagens. Imagens beijadas, tocadas, que configuravam espaços sagrados e às quais se atribuíam poderes, tanto no espaço privado como público. Uma tradição vinda das camadas populares, mais dadas a comportamentos primários e supersticiosos do que a complexos pensamentos teológicos e filosóficos mas que também neste campo iria ter defensores e opositores. Os defensores, dizendo que uma imagem participava do seu original, sendo por isso digna de veneração. Dizendo que se Deus encarnou, o que é visível tem dignidade, valorizando-se assim a visão de imagens, até por ser mais acessível do que a palavra para alimentar o sentimento religioso. Em contrapartida, o papa Leão III propôs a destruição de tudo o que fosse imagem, mandando mesmo destruir a de Cristo na porta de bronze do seu palácio, venerada pelo povo. Antes disso, ainda no tempo do Império Romano, já se via no culto das imagens um primário e perigoso vestígio pagão. Aliás, não por acaso, na arte bizantina, onde o culto da imagem atinge o seu esplendor, é abolida a estatuária, pela sua associação a uma idolatria pagã. Repito: idolatria, veneração de falsas imagens em detrimento de uma relação mais espiritual ou interior com o sagrado. Ganharam os defensores como ainda hoje se pode ver ao entrarmos em qualquer igreja ou nos melhores museu do mundo. Mas tivessem perdido e a história das imagens na cultura ocidental teria um rumo completamente diferente.

Disse no início que a comparação entre os talibãs e os revolucionários é desafiante. Agora que já lembrei esta querela, posso explicar melhor porquê. Repare-se na pose daqueles homens: a pose solene dos caçadores quando exibem um poderoso leão a seus pés como precioso troféu, já inofensivo como um gatinho de peluche. Também estes homens têm um imperador a seus pés e dá bem para imaginar a sua exuberância horas antes enquanto derrubavam a coluna. Acontece que o leão, pouco antes de ser caçado, era um ser vivo, terrível e ameaçador, um verdadeiro rei da selva, assustando tudo e todos. Mas Napoleão? O verdadeiro Napoleão está morto há 50 anos. Como explicar esta solene pose face a um bloco de pedra que representa um imperador morto há 50 anos? Isto, numa praça bem perto dos salons philosophiques, por onde homens como Voltaire, Diderot ou d'Alembert espalhavam as luzes da razão, ou bem perto dos modernos boulevards há pouco rasgados em nome de um racionalismo urbano? Como diria um psicólogo que estuda o desenvolvimento da criança, há ali uma infantilidade mítico-mágica, sincrética, pré-operatória ou pré-racional. Estes homens levam tão a sério aquele pedaço de pedra derrubado como uma criança a sua boneca a quem dá de comer, muda a fralda, veste e com quem conversa.

Li uma vez o saudoso deputado João Amaral contar que, no meio de uma delegação parlamentar de visita à Coreia do Norte, estava numa praça de capital, vendo um polícia aproximar-se depressa e com ar ameaçador. Depois de alguma confusão lá acabou por perceber que estava a pisar a sombra da estátua do ditador, o que era absolutamente proibido. Nós rimo-nos disto mas, vendo bem, não há grande diferença entre um bloco de pedra e a sombra do bloco de pedra. O que é válido para a estátua de Napoleão ou para a sombra da estátua de um ditador, é também válido para um boneco de loiça representando a Nossa Senhora de Fátima, um ícone ortodoxo representando um santo ou um Cristo de madeira no altar de uma igreja perante o qual as pessoas se ajoelham quando passam, ou até para a bandeira de um país que não pode ser rasgada apesar de não passar de um pedaço de pano colorido. Atenção, eu fico muito feliz por o cristianismo ter seguido o caminho da valorização da imagem. Graças a isso, temos algumas das mais belas pinturas ou esculturas da história da arte, um património artístico de incalculável valor. Eu mesmo, durante décadas, absolutamente insensível à arte medieval, tenho-me convertido cada vez mais à sua beleza ao ponto de me comover com muitas delas. Todavia, seguindo a linha islâmica face às imagens, ou até em harmonia com o que é dito no Antigo Testamento relativamente à impossibilidade de representar Deus, os talibãs têm razão no que se refere à nossa relação com as imagens enquanto fenómeno idolátrico ou até com laivos fetichistas. Pedaços de pedra que ganham poder quando erguidos, pedaços de pedra que depois o perdem quando deitados abaixo. Nós olhamos para os talibãs com desprezo e a sobranceria de quem vê o mundo com quadros mentais desenvolvidos mas não vislumbramos nada de especial na fúria com que, no nosso mundo desenvolvido, uns deitam furiosamente estátuas abaixo e outros as erguem com devoção, considerando tudo isso normal. O mundo não é assim tanto só feito de preto e de branco como esta velha fotografia de Paris.