29 junho, 2017

SENTIDO

Alfred Eisenstaedt | 1940

O filósofo Paul Ricoeur, a grande referência intelectual de Emmanuel Macron, era a sensatez feita pessoa. Já em 1965 dizia que de todas as questões sociais e políticas a mais importante é a do sentido e do não-sentido, escrevendo, por exemplo, que «o mundo moderno dá-se a pensar sob o duplo signo da racionalidade e absurdidade crescentes (...). Os homens têm falta de justiça, certamente, de amor, seguramente, mas mais ainda de significado». Talvez a consciência disso seja a principal razão pela qual o mundo suspirou de alívio com a eleição de Macron (se bem que o facto de não ter um "partido", coloque a política francesa num plano inédito) e ficou apreensivo com a eleição de Trump. Nos anos 80, havia mísseis SS 20 soviéticos apontados aos países ocidentais, estando os Pershing, por sua vez, apontados para leste. Mas tudo fazia sentido. No lado de cá, havia o mercado, a liberdade, a modernidade. No de lá era o Estado totalitário e opressor, o Partido, um mundo claustrofóbico sugado por ideias do século XIX. Mas havia uma racionalidade nisto com os seus modelos claros e distintos, as suas duas lógicas. O mundo de hoje, sobretudo desde que o muro foi abaixo e após 11 de Setembro, é um mundo confuso. Países confusos, partidos confusos, líderes confusos, projectos sociais confusos, uma confusão por vezes a roçar a bipolaridade. O que faz falta agora não é um mundo novo que nunca poderá existir. Claro que também não é um mundo velho que já não poderá voltar a existir que faz falta. O que faz falta, mas falta mesmo, é olhar bem para o que ainda temos e dar-lhe um sentido que não queremos perder.