24 junho, 2017

REAL ESPOSENDE



Uma das características das emoções é a sua intensidade, a qual pode ter vários graus. O medo e a alegria são maiores em certas circunstâncias do que noutras conforme a causa dessa emoção. A tristeza pela morte de alguém querido é muito maior do que a tristeza por uma nota num teste abaixo do esperado. A alegria por saber que alguém querido se salvou de uma doença grave não é comparável à alegria por uma nota acima do esperado. E ainda que a expressão física de emoções com diferentes graus de intensidade possa ser semelhante (risos, choro de alegria ou tristeza, abraços), quem as sente por dentro percebe bem as diferenças.

Como explicar então a transbordante alegria dos jogadores do Esposende por conquistarem a Taça da AF Braga, um torneio dos humildes distritais? Repare-se nos sinais exteriores de alegria destes jogadores e comparemos com os sinais exteriores de alegria dos jogadores do Real Madrid ao vencerem a Liga dos Campeões. Fisicamente, não há qualquer diferença: os risos, os abraços, os gritos, os saltos, são os mesmos. Será então que por dentro a emoção já será proporcional à importância do troféu? Será que por dentro a alegria dos jogadores do Real Madrid é maior por terem a consciência do troféu que é, sendo a alegria dos jogadores do Esposende menor por se tratar apenas de um troféu dos distritais? Não. As emoções são exactamente as mesmas, a alegria é a mesma, o entusiasmo é o mesmo, a sensação de plenitude é a mesma. Do mesmo modo, a explosão de alegria de um jogador do distrital de Viseu que marca um golo decisivo no último minuto é igual à explosão de alegria de um jogador que joga na Bundesliga, na Premier League ou no Calcio e que marca um golo decisivo no último minuto.

Racionalmente, não faz sentido tamanha alegria num jogo distrital. Uma taça dos distritais tem pouco valor e a alegria por uma vitória deveria ser proporcional a essa importância. Tratar-se-á então de uma espécie de tacanhez, de um certo provincianismo emocional que torna grande o que é pequeno? Não. É verdade que se trata de uma alegria que resulta de um exercício de uma livre imaginação, exacerbando uma importância que, objectiva e racionalmente, não tem, ao contrário do que se passa com uma final da Liga dos Campeões. Mas também é verdade que importâncias relativas podem ser justamente transformadas em importâncias absolutas. Vejamos, ser ministro é mais importante do que ser presidente da câmara de uma terra como Torres Novas, ser engenheiro é socialmente mais reconhecido do que ser canalizador. Mas quando queremos avaliar o trabalho de um presidente de câmara ou de um canalizador não é com um ministro ou com um engenheiro que os iremos comparar mas com outros presidentes de câmara e outros canalizadores. Um ministro pode sentir-se orgulhoso por um excelente trabalho durante o seu mandato. Ora, o presidente de câmara jamais poderá sentir orgulho por esse tipo de trabalho pois não está ao seu alcance. Mas pode sentir exactamente o mesmo tipo de orgulho pelo que pôde fazer enquanto presidente de câmara. A sua importância é objectivamente relativa mas se ele alcançou o máximo do que poderia ter feito enquanto autarca então neste caso o seu orgulho pode ser subjectivamente absoluto. E com o canalizador a mesma coisa. O canalizador não tem de olhar para si e ver um não-engenheiro. Tem de olhar para si enquanto canalizador, e se for um bom canalizador, competente, solicitado pelo seu valor, o seu orgulho pode ser tão intenso como o do engenheiro que fez uma ponte mundialmente conhecida. As emoções têm a sua própria inteligência e razões que a própria razão desconhece. E parabéns ao Esposende pelo brilhante título conquistado.