09 junho, 2017

PRAIÓPTICO

Weegee | Coney Island, 1940

Logo na sua capa, informa a revista Sábado que «Nutricionistas e personal trainers sugerem regras de ouro da alimentação e do exercício físico para conseguir um corpo de praia». Eu bem sei que são escassos os meus conhecimentos na área da biopolítica mas não deixo de ficar surpreendido com a evolução conceptual que nos leva do já clássico «Corpo Danone» a este mais moderno «Corpo de Praia».

O «Corpo Danone», apesar da sua natureza estética, está ainda marcado por um despotismo higiénico e gastronómico com a sua ideologia da pureza, da saúde, do bem-estar, do equilíbrio, da leveza. Uma ideologia cuja máxima expressão simbólica é passar com a mão pela barriga e sentir que nada de impuro existe no seu interior, nada das máculas primitivas que sustentaram a humanidade desde os primórdios. Uma espécie de barriga inorgânica, sem biologia, sem química, apenas um vácuo celeste que faz a mulher moderna sentir-se hiperleve e viver como se levitasse. Com o «Corpo Danone» gosta-se da imagem que o espelho devolve mas não menos importante é a felicidade resultante do que se pressente no seu interior. Daí que no programa «Corpo Danone» ainda haja um certo desígnio filosófico de raiz estóico-epicurista.

O «Corpo de Praia» é mais radical. Claro que o «Corpo de Praia» pressupõe o «Corpo Danone» com as suas regras de ouro da alimentação e do exercício físico dadas por nutricionistas e personal trainers como as tábuas dos mandamentos a Moisés. Acontece que a saúde do «Corpo Danone» é aqui apenas um efeito inevitável de quem almeja o «Corpo de Praia». Por exemplo, uma pessoa que deseja um belo bronzeado precisa de se expor ao Sol nas horas em que este é mais simpático. Ora, ao expor-se ao Sol, beneficia das suas generosas doses de Vitamina D, ainda que não fosse esse o objectivo. Eis o que se passa também com a alimentação saudável e o exercício físico como condições para o «Corpo de Praia». O seu único fim é a conquista de uma criteriosa visibilidade tal como uma obra de arte que precisa de reunir certas condições para ser aceite numa exigente galeria. Neste sentido, a praia é povoada por dois tipos de corpo, com estatutos diferentes: os corpos na praia e os corpos de praia. Eu, com a minha barriga de cinquentão, e outras excrescências adiposas, se for à praia, sou um «corpo na praia», como serei também um corpo na esplanada, um corpo no jardim, um corpo numa palestra ou um corpo nesta cadeira onde estou sentado. Mas alguém com o seu «Corpo de Praia» não ocupa um espaço que lhe é exterior, descobre-se no seu próprio elemento, a praia. Um corpo na praia é como um castelo de madeira que uma criança leva para a praia para o pousar na areia. Está ali como poderia estar noutro sítio qualquer. Um «Corpo de Praia» já será como um castelo de areia feito pela mesma criança lá na praia. Ambos são castelos mas um pertence mais à praia do que o outro, sendo por isso um «castelo de praia» e não um castelo para estar no quarto ou no infantário.

O «Corpo de Praia», tal como acontece com o panóptico de Bentham, perde assim a sua espontaneidade, a sua naturalidade, a normalidade de um corpo feito para existir e agir sem ser observado ainda que o seja, natural e espontaneamente, entre pessoas que observam e são observadas no espaço público, para passar a ser um corpo institucionalizado com a ajuda «científica», «técnica», «especializada» de nutricionistas e personal trainers. Uma versão estética do jacobinismo anti-religioso e republicano que tem mostrado as suas garras em França relativamente ao problema do burkini, querendo impor o que se é obrigado a vestir mas também o que se é obrigado a despir. Verdade que ninguém é obrigado a ter um «Corpo de Praia», ninguém vê o seu acesso à praia vedado por não o ter. Porém, não se tratando de uma questão formalmente política, legislativa, partidária, mais complexa e insidiosa se torna. Claro que não há qualquer mal em ter um «Corpo de Praia». Um «Corpo de Praia» não é outra coisa senão um corpo bonito e elegante, e o que não falta no mundo são pessoas como corpos bonitos e elegantes os quais existem com a mesma naturalidade com que existem pessoas com corpos que não são bonitos e elegantes, parecendo ainda normal que se pudéssemos todos escolher o corpo que nos estaria destinado tal como escolhemos a roupa que o redefine, iríamos todos escolher um corpo bonito e elegante, tal como escolheríamos ver ou ouvir bem e não ter dores nas costas em vez de ver ou ouvir mal e ter dores nas costas. O problema está simplesmente na institucionalização do «Corpo de Praia» com o seu controlo, a sua vigilância, a sua obsessiva idealização de acordo com normas das quais nos tornamos voluntariamente servos dentro dessa enorme prisão em que por vezes se torna a nossa consciência.