25 junho, 2017

POR ESTE RIO ACIMA

Andrei Tarkovski | Nostalgia

Mais de quarenta anos depois, regressei a um lugar onde fui feliz. Ia algo apreensivo com o célebre aviso de Pavese na cabeça. Mas logo percebi que não havia motivo para isso. Há uma coisa que Pavese deixou passar: quem regressa a um lugar onde se foi feliz já não é a mesma pessoa que foi feliz nesse lugar. A pessoa que foi feliz não coincide com a pessoa que regressa, a primeira ainda não é a que virá a ser depois de lá ter sido, a segunda já não é a que foi. Como diria Heraclito, nós somos e não somos e mesmo a água onde nos voltamos a banhar já não é a mesma onde nos banhámos antes, o que faz com  que se regresse ao rio como se fosse uma primeira vez. Não há, portanto, repetição, nem como tragédia primeiro, nem como farsa depois. Apenas um novo capítulo de uma história que só acaba quando as águas do rio se dissolvem de vez no imenso oceano.