12 junho, 2017

PEEP SHOW

Eva Rubinstein

Há diferença entre o orgulho e a vaidade? Há. O orgulho resulta de um estado de satisfação interna por ser bom ou por alguma coisa que se fez de bom. É aquilo que agora, algo pindericamente, se designa por auto-estima. Eu detesto a palavra auto-estima, uma palavra vaga que apenas me daria jeito se eu agora abrisse um stand de automóveis para uma clientela hipster. Gosto mais de orgulho e é bom haver pessoas orgulhosas, pelo que são ou por algo que tenham feito. O orgulho é produtivo, mobilizador, pragmático, fazendo das boas acções os espelhos onde uma pessoa se vê para legitimar esse orgulho. A vaidade é completamente diferente. Significa deixar de se reconhecer numa acção ou num objecto resultante dessa acção, para se ver com os olhos dos outros, transformados em espelho, num exercício de submissão. Daí, algo paradoxalmente, a vaidade implicar um esquecimento de si: a pessoa vaidosa está tão centrada no olhos dos outros que acaba por se diluir neles. Robinson Crusoe, na sua ilha, pode sentir-se orgulhoso por ter conseguido sobreviver, estando numa luta permanente pelo seu próprio reconhecimento mas, sozinho, jamais conseguiria ser vaidoso pois não teria olhos à sua volta para alimentar a sua vaidade, podendo assim concentrar-se no que o faz ser bom e melhorar a sua vida na ilha. Parece-me que uma doentia vaidade está cada vez mais a ultrapassar um saudável orgulho, transformando o mundo num peep show cheio de janelas direccionadas para um centro vazio. Os herdeiros de Narciso, que se perde no rio no momento em que se quer possuir, também se esvaem, só que nos mil olhos de quem está do lado de lá.